Por onde ando, três olhares sobre Silvia Carvalho

Por MARTA FACCO, LIGIA CZESNAT, ROSANGELA CHEREM

Ensaio Crítico

Por onde ando é o nome da exposição que Silvia Carvalho leva a Galeria da ELASE em Florianópolis, entre os meses de setembro e outubro de 2025. A equipe destempo, juntamente com convidados, conversa com a artista, conhece os trabalhos expostos e apresenta aqui um ensaio crítico construído a partir de três diferentes olhares.

PRESENÇA E DISSOLUÇÃO, por Marta Facco

Na exposição Por onde ando, apresentada na Galeria da Elase em Florianópolis, Silvia Carvalho reúne um conjunto de pinturas realizadas a partir de pigmentos minerais preparados artesanalmente. Cada cor nasce de um gesto paciente de coleta, trituração e recombinação, instaurando superfícies silenciosas, de tonalidades sutis e profundamente sensíveis. Nessas obras, a cor não se impõe pelo excesso, mas pela escuta do tempo e da matéria, revelando camadas que se constroem lentamente até adquirir densidade própria.

As pinturas de Silvia nascem do encontro entre a terra e o tempo. Pigmentos minerais recolhidos e selecionados tornam-se cor silenciosa, matéria paciente que se deposita em camadas. Cada tom guarda a memória de sua origem e revela-se na superfície como um respiro, delicado e profundo.

Essas paisagens não descrevem lugares reconhecíveis. São vislumbres, aproximações que direcionam o olhar para o micro, como se fossem imagens ampliadas ao limite de um zoom fotográfico, onde a nitidez se perde e o borrado abre espaço para o abstrato. Horizontes, relevos e regatos parecem emergir e desaparecer, num constante jogo entre presença e dissolução.

Na sutileza das cores e na vibração contida da matéria, Silvia Carvalho nos convida a habitar um território entre sonho e lembrança, onde a paisagem não se apresenta como cenário fixo, mas como acontecimento: instante suspenso que nos devolve o assombro diante do que persiste, silencioso, no coração da terra.

A ALQUIMIA NO PROCESSO NO ARTÍSTICO, por Ligia Czesnat

O uso de pigmentos naturais na prática pictórica não se restringe ao passado, pois este uso persiste na arte contemporânea. Criar uma alquimia cromática revela uma habilidade que envolve a exploração de camadas, transparências e contrastes, buscando atmosferas para criar paletas de cores ricas e expressivas que remete a uma longa tradição e remonta, possivelmente, à pré-história. A artista Sílvia de Carvalho, é tributária desta herança milenar, revelando a busca de uma cartela que considera uma relação entre homem e natureza de modo mais integrado.

De diferentes modos até os dias atuais, muitos artistas consideram a natureza como matéria-prima. Assim, na land art vemos Robert Smithson construir um quebra-mar em forma de espiral, considerando as águas cor de rosa de um lago em Utah. Já Agnes Denes cultivou dois acres de trigo em um terreno baldio próximo ao World Trade Center, sendo que o contraste entre o campo dourado e os arranha-céus tensionou a relação entre  poética e política, natureza e progresso, urbanização e sustentabilidade. Por sua vez, realizando uma conexão entre pintura e escultura, a brasileira Erika Verzutti recorre à moldagem manual, apropriando-se de formas como ovos, animais, frutas e verduras no que se pode reconhecer como uma prática abrangente e híbrida entre as referências naturais e os artifícios da arte. 

A singularidade de Sílvia de Carvalho consiste na busca de alternativa às tintas industrializadas, reafirmando opções sustentáveis em seu fazer artístico e inserindo os recursos da natureza no seu processo de fatura e poética. 

ENTRE AS ESTRELAS E O VENTRE DA TERRA, por Rosângela Cherem

Procurar, identificar, recolher. Raspar, triturar, amassar, peneirar. Armazenar, agrupar, colecionar. Diluir, aplicar, recombinar. Eis algumas etapas importantes da pesquisa de pigmentos minerais com os quais Silvia Carvalho realiza suas pinturas, por meio das quais relembramos tanto os procedimentos que acontecem numa cozinha, como as antigas práticas de mineração oriundas desde um Brasil colonial. É com este material e com a recorrência destas ações que a artista dá a ver paisagens nunca vistas anteriormente, por meio das quais deslindamos caminhos, horizontes, pedras, regatos, dentre outras presenças. Suas camadas são pacientemente construídas, buscando materializar realidades tão intuídas e imprecisas como imagens de um sonho. Suas cores são variadas, compondo uma cartela bastante sutil e singular. 

Natural de São Paulo, capital, buscou como parte de sua formação inicial, Criação e Ilustração na EPA, Escola Panamericana de Arte, de 1985 a 1989 e cursou Desenho de Observação com Dalton de Lucca entre 1988 e 1989. Nos anos 90 mudou-se para Florianópolis, onde estudou Design de Interiores com Pilar Arantes entre 1995 e 1996, dedicando-se ao Bacharelado em Artes Plásticas, de 2006 a 2010, além de realizar seu mestrado em Artes Visuais 2014/2016 no CEART-UDESC, onde também frequentou o Grupo Estúdio de Pintura Apotheke-  coordenado pela sua orientadora Jociele Lampert, na linha de Ensino em Artes Visuais, de 2014 a 2021. 

Dedicando-se a uma pesquisa com pigmentos terrosos desde 1998, suas caminhadas, performances e instalações lembram artistas como Richard Long. Porém é entre artistas brasileiros contemporâneos que encontra suas principais referência. Assim, aponta Rubens Oestroem, Carlos Vergara e Daniel Senise, quanto ao uso de materiais; Renata de Bônis, em relação a uma cartela cromática rebaixada; Karin Lambrecht, no que se refere aos processos pictóricos naturais; Paulo Pasta e Arcângelo Ianelli nos estudos cromáticos e vibração da cor, bem como em David Almeida na sua interessante técnica do Bolo Armênio, no que tange às paisagens. 

Por onde ando é o nome da exposição que acontece na Galeria da ELASE em Florianópolis,  entre os meses de setembro e outubro de 2025. Sabemos que os pigmentos naturais com que trabalha são uma matéria muito ancestral, poeira que um dia já pertenceu às estrelas. No seu pequeno livro A bolsa de fiçcão, sua autora destaca a importância de preservar essa barriga do universo, tudo aquilo que cabe neste ventre das coisas por virem e nesta tumba das coisas que foram. No breve ensaio no qual comenta sobre sua coleção de areias trazidas como preciosa bagagem, Italo Calvino observa que se trata de uma espécie de vida triturada numa poalha de grãos, exercício para reconduzir à memória certas sensações e percepções com as quais consegue lidar em relação aos lugares por onde andou, buscando reencontrar na materialidade daquele mundo erodido os próprios fundamentos da vida, no tempo e espaço que lhe coube viver. Eis um olhar sensível, lançado para além da ordinariedade do sujeito e da vida, tal como agora a testemunhamos, como também para aquilo que sobreviverá muito além de tudo que hoje conhecemos.

Compartilhe em suas redes

Posts recomendados