A persistência das formas, linhas e cores num mural de Cassia Aresta
Por ROSANGELA MIRANDA CHEREM
Um mural na fachada de um prédio de habitação popular, no bairro de Bela Vista, em Florianópolis, é realizado em 2015 pela artista visual Cassia Aresta, que usou cerâmicas garimpadas num cemitério de azulejos e orientou os trabalhadores da construção quanto ao corte em diferentes ângulos e tamanhos, bem como em relação a sua montagem. Colocando a arte no cotidiano urbano e no espaço público de modo mais acessível, o trabalho faz a arquitetura conversar com a história das formas geométricas, presentes desde as cestarias indígenas até a história da pintura no Brasil.
Quem passar pelo Residencial San Marino, localizado à rua Egídio Manoel Schmitz, número 28, num bairro de Florianópolis chamado Bela Vista, verá que os moradores dos apartamentos com dois ou três dormitórios, em sua maioria financiados, possuem um diferencial em relação a outros prédios de seu padrão: uma fachada assinada pela artista Cassia Aresta (Florianópolis, 1956). Trata-se de um mural feito em 2015 com azulejos montados no alto da entrada do edifício como um quebra- cabeças geométrico sobre parede, medindo 1,35 X 6,05 m.
“Chamei o mural de Conversa com Volpi. Ao contrário da maioria dos artistas que acham que sua obra tem que ser mais importante que o conjunto de tudo que está ao redor, compus um trabalho simples que conversa não só com a arquitetura do prédio, mas também com seu entorno. Num bairro popular, numa rua de uma quadra só, não quis nada monumental, preferi criar algo a ser incorporado ao dia a dia, como um vizinho querido. Usei cerâmicas que garimpei no cemitério dos azulejos, visto que hoje em dia não existem mais aquelas cores nas cerâmicas. Algumas foram cortadas em diagonal, outros ficaram inteiros com diversos tamanhos”.
Com características semelhantes quanto à localização e à escolha por um diálogo entre arquitetura e ambiente, a artista fez outro trabalho em 2017, o qual intitulou Dança dos Quadrados. Dessa vez a composição foi feita para o Residencial Portovenere, na rua Santo Antonio, 513, São José, município da Grande Florianópolis. Trata-se de um conjunto de pisos cerâmicos pretos, assentados sobre o fundo branco da platibanda, resultando numa composição rítmica em duas cores, medindo 1.50 x 6.20m. Em ambos os painéis, Cassia Aresta orientou os trabalhadores na montagem dos azulejos que funcionam como módulos que vão girando, semelhante a várias telas encaixadas e justapostas, formando um percurso com movimentos angulares e espaçamentos, recortes e rejuntes. Tal procedimento demanda um cálculo geométrico, além de preferências compositivas e escolhas dos próprios azulejadores.
Bem verdade que ambos os trabalhos em murais de edifícios, de moradia popular articulam questões artísticas e urbanas, sendo que a artista é atuante na vida da cidade em que mora e participante de atividades relacionadas à Comissão Municipal de Arte Pública do Instituto do Patrimônio Urbano de Florianópolis (IPUF), projetos culturais promovidos pela Comissão de Avaliação de Incentivo à Cultura (CAIC) e do Grupo Traços Urbanos. Nesse sentido, ela afirma que “as obras públicas têm seu valor pago através dos impostos. Então, mais do que nunca devem estar voltadas para a população que as pagou”.
Voltemos agora nossa atenção para o painel intitulado Conversa com Volpi, considerando o conjunto de afetos e lembranças, premeditações e lapsos que permitem reconhecer as singularidades em relação às escolhas poéticas e soluções de fatura da artista. Uma camada mais remota e pessoal pode ser apontada na infância da menina, cujo pai com formação de agrimensor, trabalhava no departamento da prefeitura onde elaborou alguns traçados de ruas e vias da cidade. Depois foi admitido como eletricista na empresa Centrais Elétricas de Santa Catarina S.A- CELESC, sendo que para completar o orçamento familiar também fazia planta baixa de casas. A filha via esta atividade com interesse, enquanto ele manuseava seus instrumentos: tira- linha, régua de escalas, compassos. Assim, aprendeu a olhar traços e formas através de uma matemática aplicada ao espaço. A mãe tinha habilidades manuais e fazia um tipo de bordado chamado vagonite, baseado em cálculo e contagem de pontos, sendo que esta técnica prezava pela simplicidade retilínea e clareza simétrica, resultando num tipo de ornamento bastante limpo, inclusive pelo lado avesso do trabalho. Considerando a relação daquela criança com os afazeres dos pais, percebe-se um vínculo afetivo profundo que se manteve num olhar atento às formas geométricas, metamorfoseadas nos seus procedimentos artísticos.
Todavia, para além das afecções infantis, é preciso considerar também certas recorrências e escolhas que incidem sobre a formação artística de Cássia Aresta. Trata-se de um repertório de quem iniciou um curso de Belas Artes em São Paulo, mas acabou privilegiando um caminho menos institucional que aconteceu de modo mais livre através de oficinas e ateliês, além de participação em palestras, seminários e orientação de trabalhos, ocorridos, sobretudo, a partir dos anos 90, quando também passou a participar de residências artísticas e exposições individuais e coletivas, bem como de projetos culturais de convivências em arte, residências artísticas e um envolvimento com Arte Pública. Assim, incorporou a herança construtivista que na América Latina tomou o nome de concretismo e se desdobrou na arte cinética, onde as retas e os ângulos deram lugar aos ritmos. Evitando a clave subjetiva, onde poderia predominar a carga expressiva, a inspiração e a improvisação, observa-se na artista o que Roberto Pontual chamou de geometria sensível, em contraponto ao rigor lógico e ao caráter mais programático do construtivismo europeu, sendo que preservou um olhar atento às formas, salientadas por um equilíbrio e sobriedade cromática.
Não deixa de ser bastante elucidativo o fato de que o mural aqui apresentado se chama Conversa com Volpi. A referência vem da singeleza daquele pintor modernista, que também não teve formação artística institucional ou formal, mas foi exímio pintor de murais, decorador e colorista, notável pela geometria de suas telas onde compareciam bandeiras, igrejinhas e casinholas. Para Cássia Aresta a linha, como estrutura subjacente à superfície, provém de um tipo de inteligência espacial, mas vem acompanhada pela delicadeza e recusa do embate, privilegiando uma sintonia fina com o lugar. Assim como no caso das suas colagens, ela busca a sugestão de outras formas, alterando as certezas visuais em proveito da perspicácia dos recortes, da agudeza dos desenhos e da autonomia da imaginação espacial, através de escolhas relacionadas a direções, interrupções e intervalos. Desse modo, reafirma a linha que acolhe e interage com o lugar, tornando-se ela mesma um espaço, tal como é possível reconhecer na fala que segue: “Quando pego papéis em cima da mesa e começo uma colagem, aparentemente de modo aleatório, já tenho um eixo formado por linhas por baixo desta colagem. Elas dividem o espaço que manuseio com facilidade e prazer. Fatio as ações em linhas imaginárias que elas indicam”.
Em outras palavras, fruto de descobertas e encontros, sua produção é serial, mas não é nem pré-estipulada, nem resultado de um extravasamento emocional. Sua solução poética advém ora pelo uso de cores e recortes, ora pelo recurso de enquadramentos e planos compositivos, quer nas fotografias, quer no uso de azulejos. Mesmo quando dá lugar aos ritmos e planos curvilíneos, como no caso das suas fotografias, permanece um silêncio contemplativo, salientado por um equilíbrio e sobriedade cromática. Tanto nas colagens e fotos, como nas pinturas e desenhos, a recorrência se refere a uma noção operatória que não é dada pelo raciocínio mais frio, mas por uma espécie de busca pelas surpresas visuais mais sutis. Em todos os casos, o cálculo não exclui a intuição, nem o determinável exclui o sopro do sensível, pois o trabalho não nasce de uma matriz conceitual premeditada, mas acontece através de um cruzamento entre fatura e reflexão sobre as formas. Em Cassia Aresta é a mão que aciona um pensamento sobre superfícies e planos, a qual antecede os fundamentos explicativos, discursivos ou narrativos:
“Quando me mudei de São Paulo para voltar a viver em Florianópolis, parece que abri mão de um olhar para a paisagem do concreto e das estruturas mais rígidas e controladas, das linhas mais domadas, capazes de ditar os limites e lugares. Meu olhar ressignificou as linhas do mar e das montanhas da cidade em que nasci e cresci. Com o passar dos anos percebo que tudo caminha sem meu controle, não sou dona do destino, permito-me deixar para amanhã as necessidades prementes. Percebi que os caminhos nem sempre são retos como achamos que traçamos. A distância mais curta entre dois pontos nem sempre é uma reta. Então a linha também se afrouxou, pode se curvar ao seu destino”.
Pensando uma outra camada de sentido para o trabalho intitulado Conversa com Volpi, pode-se estabelecer uma relação entre a geometria e a hospitalidade, conectando o mural tanto ao espaço arquitetônico, como ao cotidiano dos moradores do prédio. Vale lembrar que a hospitalidade é um fenômeno humano que consiste em abrigar o outro, aceitar o estranho, construir e consolidar relações. Em algum momento todos somos hospedeiros e nos tornamos anfitriões. Por outro lado, o hóspede não é um morador local, é alguém que vem de fora, que encontra um abrigo, instala-se temporariamente, embora, em alguns casos, possa se tornar permanente. Em algum momento precisamos ou desejamos ser acolhidos, entregar-nos ao abrigo, ser hóspede é uma experiência que todos conhecemos. Ocorre que as duas faces deste entendimento servem como uma metáfora para pensar uma obra de arte inserida num espaço de circulação e visibilidade para muitas pessoas. Podemos hospedá-la em nossa vida e em nossa rotina, deixando que a obra se torne uma referência mais definitiva e necessária em meio a nossas atribulações e desamparos. Também pode acontecer que sejamos abrigados pela imaginação e pela poesia que dela emana, sendo esse o momento em que a obra nos acolhe e muda nossa perspectiva diante da brutalidade e do peso das nossas lides.
Dito de outro modo, dos azulejadores aos moradores, dos simples transeuntes aos espectadores, há um convite apresentado por Cassia Aresta, o qual diz respeito à possibilidade de acolher uma pequena interrupção, tanto para os olhos dormentes ou cansados, como para o corpo embrutecido ou anestesiado. Instalada na fachada do Residencial San Marino, permanece uma demanda: que a dureza e a pressa diária possam ser trocadas pelos pequenos segredos murmurados através da leveza das cores e formas, do equilíbrio das posições e planos. Diante de um cotidiano atulhado pela banalidade e pelo excesso de imagens, que a sensibilidade encontre o seu abrigo e, então, só isso se torne tudo isso ou mais que isso.
Neste sentido, é para todos nós que a artista lança o desafio da hospitalidade: que em algum instante único e silencioso da nossa percepção, distraídos ou entregues à observação, alcancemos detalhes e variações, estabeleçamos continuidades e interrupções, prestemos atenção e nos posicionemos com sutileza, acolhendo as infinitas combinações e possibilidades que cabem no mundo. Se assim pudermos compreender, então este trabalho pode ser pensado como uma experiência comum ao anfitrião e ao hóspede. E assim a conversa segue.



