A cosmogonia ovóide de Eli Heil
Por ROSANGELA MIRANDA CHEREM
Pertence ao Museu de Arte de Santa Catarina uma pintura de Eli Heil que inclui frases espalhadas pela tela. Seu conteúdo pode ser melhor compreendido quando procuramos tecer uma trama entre certos dados de sua biografia e depoimentos pessoais, somados ao conteúdo de seus próprios escritos. Ao estabelecer conexões entre fontes dispersas, podemos nos aproximar tanto de suas sensibilidades e percepções artisticas como, em particular, de suas produções plásticas, onde se cruzam as formas visuais e os conteúdos dizíveis.
De longe um caos, de perto um segredo. Vista de longe, parece uma combinação cromática confusa. Mais de perto, as formas desconhecidas se tornam surpreendentes alusões vegetais como sementes, bulbos, botões de flores, folhas, frutos; partes orgânicas como olhos, seios com ou sem mamilos, testículos; seres microscópicos ou figurações oníricas como espermas, óvulos, gotas, lágrimas e balões. Tudo isso pode ser reconhecido na colorida composição que parece tanto mover-se no espaço, como num ambiente líquido (figura 1). Chama atenção o fato de que as inscrições ampliam os elementos ornamentais e preenchem os vãos, formando uma espécie de dança visual executada pelas flâmulas, onde balançam melancólicos poemas com frases curtas e repetidas, enquanto as formas ovóides predominam.
Aos poucos as palavras invadem a tela e estabelecem uma relação entre o registro visual e o legível, mas também entre o invisível e o dizível. O que antes era um todo informe, agora parece se tornar parte de um murmúrio ou de um segredo. Uma dor interna parece advir de um sentimento recôndito de solidão, realçado pela confidência da letra cursiva, sem nenhuma narrativa ou relação de consecutividade: “E quem vai me acolher? (…) Choro baixinho para não gritar, imploro baixinho para não implorar (…)”. É quando os olhos do espectador começam a se afetar pelo que parece ser um gemido causado por uma ferida profunda e as cores edemaciadas passam a reverberar a latência de uma desesperança. Mas de onde ela vem? Por que isto acontece, do que se trata, afinal?
Em Giordano Bruno encontramos que “sem conhecimento e paixão não há nada que se possa ligar (…) é preciso haver certa disposição mútua entre raptor e raptado (…) e assim, seres vários são atados por coisas várias e diversas (…) o vínculo é aquilo pelo qual as coisas querem estar onde estão e não perder aquilo que têm, mas também querem estar em toda parte e ter aquilo que não têm(…)”. A reflexão deste filósofo barroco italiano, condenado pela inquisição, permite compreender que é por meio do vínculo que se pode estabelecer conexões entre coisas díspares e seres desgarrados. Somente os humanos são capazes de estabelecer elos profundos, inextensos e incorpóreos, sendo que os que o conseguem não obedecem a um princípio único, nem simples. O quadro, colorido e exuberante, feito com o auxílio de uma espátula que produz ranhuras na massa pictórica, aciona um repertório ótico que desconhece regras e hierarquias, gerando um inumerável número de conexões carnavalizadas entre a vida e a morte, o orgânico e o inorgânico. Estaria a artista tentando construir vínculos? Se assim o faz, de que vínculos se trata: entre ela e seu mundo interior? entre ela e o mundo que a circunda? entre ela e nós?
Um vínculo primordial: a artista e seu mundo. Eli Heil (Santo Amaro da Imperatriz, 1929- Florianópolis, 2017) foi pintora, desenhista, escultora, ceramista, tapeceira e poeta. Inventou as mais diversas soluções técnicas a partir do uso de materiais como saltos de sapato, tampos de bacio, caixas de fósforo, tubos de tinta e canos de PVC, etc. Participou de inúmeras exposições individuais e coletivas no Brasil, incluindo cidades como Florianópolis, Blumenau, Criciúma, Joinville, Curitiba, Brasília e São Paulo, bem como países no exterior: França, Holanda, Espanha, Marrocos, dentre outros. Entre suas mais de duzentas participações, consta a XVI Bienal Internacional de São Paulo em 1981, cuja decisão a partir de uma comissão internacional foi a de romper com a montagem geográfica e agrupar as obras por linguagem, destacando-se a vídeo arte e a arte postal; cabendo uma sala especial para um tipo catalogado como “arte incomum”.
Se é verdade que sua biografia permite estabelecer certas aproximações com os estudos de Nise da Silveira sobre o Museu de Imagens do Inconsciente, também é possível reconhecer sua iniciação dentro de certos atributos xamânicos, tal como o fato de se descobrir pintora depois de ficar cinco anos doente em casa, quando recebeu um quadro de presente do irmão, pintado por um amigo dele. Sem nenhuma formação específica, sua atividade criadora se revelou aos 33 anos, após uma carreira com professora de educação física numa escola primária: “sou uma artista cuja mente ficou grávida durante cinco anos para depois renascer e produzir aos borbotões (…) sou uma maternidade artística.” No catálogo da exposição Eli Heil, 85 anos, seu curador e médico, Ylmar Corrêa Neto, chama atenção para “sua copiosa produção, cujos detalhes contemplam pequenas epifanias”. Lembrando denominações como outsider e marginal, o curador também remete ao termo primitivo e bruto para reconhecer um tipo de artista com um repertório visual proliferante, cujas técnicas e vocabulário se desenvolvem de modo muito espontâneo e perturbador, à maneira das crianças e loucos.
De acordo com as entrevistas concedidas aos jornais, Eli Heil reconhece como etapas de seu processo artístico uma gravidez mental, seguida pela explosão criativa, também abordada como convulsões e vômitos mentais. Tal ênfase se explicita no seu livro de crônicas e poesias Vomitando os sentimentos, onde constam seus desenhos e poemas com teor muito biográfico, sendo que a relação recorrente com a palavra poética pode ser reconhecida em inúmeros de seus quadros. Vaso Cérebro, datado de 1970, Vomitando Criações, de 1974, Mulheres Bicho, de 1990, Olhos D’Alma, de 2008 são alguns títulos que permitem estabelecer “um elo entre a realidade e um mundo imaginário ao qual só a artista tem acesso”.
Destaque para o fato de que o tema da ave e seu ovo gigante aparece desde seu primeiro quadro: “A arte é a expulsão dos seres contidos, doloridos, em grande quantidade, num parto colorido (…) o mundo ovo é a explosão do meu cérebro e do meu ovário”. Em diversas entrevistas registra que, logo após os primeiros meses em que decidiu pintar, sonhou que era uma bailarina com seu cérebro na mão e, em outra ocasião, sonhou com um pássaro que pousou no seu telhado e gritou: “estou caído!” Conforme seus diversos depoimentos, desde que começou sua empreitada como artista, jamais ficou mais de uma semana sem pintar, pois sem isso, seus olhos virariam “uma tela de televisão (…) eu não faço obra para vender, faço para ficar.”
Pedro Paulo Vechietti, pintor e tapeceiro, foi o primeiro a convencer a artista a expor suas pinturas numa galeria e molduraria da cidade, chamada Baú. Ainda nos anos 60, o diretor do MASC, João Evangelista de Andrade Filho, a marchand brasileira radicada em Paris, Ceres Franco, e o diretor da ECA-USP, Walter Zanini, estavam entre os primeiros nomes a olhar para os trabalhos da artista. Muito frequente dos anos 70 a 90, a crítica de jornais afirmava tratar-se de uma artista difícil de classificação, embora fosse identificada com três importantes vertentes do século XX. O lado fantástico esteve relacionado ao animismo, uma vez que as formas e criaturas surgidas em seu repertório ótico podiam ser reconhecidas como coisas e seres viventes, dentro de uma cosmologia mágica regida pelo princípio da autogênese. Se a natureza psíquica profunda e primordial, bem como a força onírica, exponencial e impremeditada, cabia na pauta surrealista, a intensidade cromática permitia apontar a clave expressionista da artista de temperamento ativo, agitado e falante, marcada por uma figuração muito pessoal, advinda de um fundo mental emotivo.
Todavia, tal preocupação não parecia afetar Eli Heil, mergulhada em seu universo de formas e cores, marcada por um interesse auto referenciado e bastante experimental: “Um diz que sou expressionista, outro, primitiva, surrealista, art pop, arte incomum, nem eles sabem”. Quando provocada a dar suas referências estéticas, buscava respostas mais pontuais, tal como o gosto pelo vermelho, capaz de retratar seus sentimentos mais revoltosos e eróticos. “Eu tive que escapar de tudo para conseguir conservar o meu mundo. Passei pela serpente até chegar aqui”.
Dificuldades para manter as obras em seu acervo particular a levaram a pedir ajuda ao governo do Estado: “o cupim estava comendo tudo quando eu morava na Crispim Mira (….)”. Depois de mais mudanças, explica que o MASC ficou cheio de obras suas: “eu paguei todo o aluguel com elas, não foi nada de graça”. Tinha cerca de 58 anos quando finalmente construiu o espaço definitivo que lhe serviu como ateliê, moradia e acervo expositivo, após 25 anos de vida artística. Sua obra constitui-se em mais de dois mil trabalhos e seu acervo pode ser visitado no museu O Mundo Ovo de Eli Heil, criado em 1987 no bairro de Santo Antônio de Lisboa, lado norte da Ilha- capital de Santa Catarina, transformado em Fundação Mundo Ovo em março de 1994.
Mais do que abarcar a origem de sua extraordinária capacidade e folego criativo, pontuando sua causa a partir de uma doença ou de uma revelação, cabe lembrar o ovo como um aspecto primordial, ressaltado pela própria artista. Imagem cosmogônica e forma originária, a partir desta imagem- forma Eli Heil foi capaz de realizar, tanto uma inflexão em relação ao seu meio, como passou a se reconhecer enquanto artista. Assim, se não disse, bem que poderia sair de um trabalho seu a seguinte frase: “o ovo me interpelou, por isso o fiz no primeiro quadro! o ovo sempre me assobrou e ao redor dele circundei e desejei penetrá-lo! Do ovo vinha tudo o que criei, por isso escolhi viver nele até o fim da minha vida!”. Agora bem, se não o disse de modo explícito, na verdade seus trabalhos não estariam ainda a dizê-lo? Em caso de dúvida, voltemos a olhar as figurações acolhidos no quadro pelo qual começa o capítulo…



