Ventania
LAÍS KRUCKEN
Curadoria
Clara Rovaris, Gabriela Moura, Tainá Sant’Ana, Lígia Czesnat
A exposição apresenta uma série de trabalhos feitos a partir de materiais trazidos pelo vento e coletados durante a pandemia. Se aquele momento carregava consigo o peso de uma pandemia vivida de proporções planetárias, a artista responde às trágicas notícias com uma inimaginada leveza e sensibilidade criativa. É como se tivesse construído um escudo para suportar a dor das perdas que atravessavam aqueles dias desesperadores e que se prolongaram ao longo de dois anos. Ventania tem sua exibição presencial na Galeria Momento, um espaço expositivo itinerante da Destempo, montada no hall da Biblioteca Central da UDESC entre 06 de setembro e 31 de outubro de 2025. Recebe agora sua versão virtual.
O vento é a força indomada que guia os pássaros em seus longos trajetos, acelerando o voo e aliviando-lhes o esforço. Foi companheiro primeiro das navegações humanas, sopro invisível que inflava velas e alimentava o desejo de desbravar horizontes. Quase entidade espiritual, nos toca a pele como quem sussurra, desalinha os cabelos, desperta o arrepio do frio ou oferece alívio fresco do calor. Onipresente desde o instante em que o mundo se abre diante de nós, ele caminha livre, sem jamais se deixar possuir. É nessa noção que Laís concebe sua parceria com as ventanias. Artista que conhece os poderes linguísticos do ar, não quer aprisioná-lo, muito menos elevá-lo a um patamar extraordinário. Seu desejo é escutar e acolher as oferendas que são trazidas com a coreografia inata dos sopros do mundo.
A captura teve início durante a pandemia, quando o vento parecia carregar as incertezas de um vírus nocivo. O tempo de isolamento despertou um novo cuidado no olhar. Laís passou a reparar no que o vento trazia junto à poeira e às folhas que se acumulavam na varanda de casa. Deixou de ver apenas o ato de varrer sujeiras para o lixo; percebeu ali uma forma de comunicação. E, como profissional da fala, soube escutar o sopro sutil dos acúmulos de penas, cipós, gravetos, pelos e pó. Diante dela, uma nova língua se revelava: um idioma sem palavras nem gramática, imaterial, que se abria trazendo presentes e sinais. Um companheiro sereno que acolhia e dialogava. Em Ventania, vemos o que a artista recolhe dessa conversa: a classificação, a separação e a elevação da desordem em gesto de organização.
Assim como em A Odisseia, em que Éolo guarda em um odre os ventos que conduzem Ulisses em sua travessia, aqui o ar se faz guardado de outra forma: não em cordas ou velas, mas nos fragmentos que transporta. Cada folha, semente, pena ou resíduo leve, deslocado pela força invisível, é testemunho daquilo que Fernando Pessoa descreve como a vocação marítima e errante da alma, impulsionada por um sopro maior que si mesma. Manoel de Barros bem recorda — é no ínfimo que reside a grandeza de quem sabe contemplar as minúcias da natureza. O espaço da galeria torna-se, assim, um recipiente de passagens e sopros, um lugar em que a matéria leve da natureza encontra hospedagem.
Clara Rovaris, Gabriela Moura, Lígia Czesnat
Curadoras
Conheça a Galeria Momento, espaço expositivo itinerante da Plataforma Destempo que recebeu a exposição presencial Ventania, de Lais Krucken entre 06/09 e 31/10/2025.



























