Contrastes Simultâneos
FERNANDO ALBALUSTRO
Curadoria
Eneléo Alcides
Abordando os fenômenos cromáticos e as fragilidades da física da visão humana que interferem e transformam nossas percepções, a exposição é composta por vídeos, sons e colagens que capturam imagens midiáticas a partir da sua característica tonal. Como uma espécie de miragem, a obra se transforma dependendo da distância em que é vista. De longe, as extensões de nuances de cores se destacam. De perto, uma profusão de elementos permite reconhecimentos afetivos, porque muitas das figuras fazem parte do nosso repertório imagético. O interesse nas imagens não tange o seu significado e sim a sua representação de matiz, privilegiando as passagens dos tons mais fechados aos mais vibrantes, sem que o olhar perca a identificação de que se trata de uma única família de cor. Com montagem no Museu da Imagem e do Som de Santa Catarina (MIS/SC) e aberta ao público entre 08/05 e 06/07/25, recebe agora sua versão digital.
Nuvens são coloridas, sombras são coloridas, brancos, pretos e cinzas são igualmente coloridos. Em Contrastes Simultâneos, Fernando Albalustro revisita o início de sua pesquisa sobre a extensão das nuanças das cores e as fragilidades da fisiologia da visão humana que interferem e transformam nossas percepções.
Usando paletas de cores bem delimitadas, sua obra permite entrever esse limiar em que a cor passa de uma família à outra. E mais, o quanto essas cores resistem à saturação e à dessaturação antes de adquirirem particularidades distintas. É assim que a família dos azuis se mostra mais extensa, permitindo uma ampla gama de gradações entre claros e escuros, enquanto a família dos vermelhos logo perde crominância e adentra às famílias dos rosas, laranjas e marrons.
As obras são compostas por imagens midiáticas capturadas a partir da sua característica tonal. O interesse nas imagens não tange o seu significado e sim a sua representação de matiz, privilegiando as passagens dos tons mais fechados aos mais vibrantes, sem que o olhar perca a identificação de que se trata de uma única família de cor.
A primeira série, feitas entre 2010 e 2018 com papel colorido coletado em longas pilhas de revistas, coincide com os últimos momentos em que essas publicações fizeram parte do cotidiano, antes do mercado editorial, gradualmente, substituir as impressões pela versão digital. Nesta fase, percebe-se o processo de localizar imagens compostas de uma única cor, recortá-las, separá-las de acordo com os seus matizes e depois usá-las como quem usa tintas dispostas em uma paleta, recompondo cuidadosamente as passagens tonais. Os fragmentos midiáticos são sobrepostos e colados de acordo com sua proximidade tonal, como se fossem gestos de pinceladas.
Uma espécie de tromp l’oeil se abre e a obra se transforma dependendo da distância em que é vista. De longe, as extensões das nuances das cores se destacam. De perto, uma profusão de elementos permite reconhecimentos afetivos, porque muitas das figuras fazem parte do nosso repertório imagético. Como as imagens apropriadas das revistas são efêmeras, necessário finalizar o trabalho com um minucioso registro fotográfico e impressão. Aqui acontece uma espécie de xarada: colocadas lado a lado, colagem e trabalho final, é um desafio aos olhos perceber qual é qual. Somente o passar dos anos afastará, por desbotamento, as colagens da obra finalizada. Por último, qualquer alteração de cor luz do ambiente metamorfoseia a cor pigmento da obra. Fenômeno que pode ser mais bem contemplado na obra Autorretrato em cor não absoluta.
As produções mais recentes desdobram o processo, recorrendo apenas às imagens digitais selecionadas, desta vez concentrando matizes sem variações tonais com características cromáticas do mesmo valor. Nesta exposição, esta série está disposta em pares de cores complementares ou opostas, gerando os contrastes simultâneos e a saturação do olhar.
Se as investigações das cores partem de uma cuidadosa experimentação dos fenômenos físicos, a relação entre cor e som entra na exposição como uma experiência poética, pois nenhuma pesquisa científica alcançou relação entre as frequências das cores luzes e as vibrações das notas musicais; apesar de inúmeras tentativas de reconhecer e relacionar as cores vibrantes com notas mais agudas e tons maiores, enquanto as cores mais escuras costumam ser associadas com notas graves e tons menores. É neste movimento entre a cor do som e o som da cor que o convidado Alexandre Keller Albalustro compõe sequências tonais interpretando os acordes cromáticos presentes nas obras.
Eneléo Alcides
Curador
Não é branco, Não é preto e Cinzas coloridos
Não é branco foi a primeira colagem realizada em 2010, dando início à investigação da extensão das nuances das cores, durante o período em que o artista escrevia uma monografia com o mesmo tema em uma especialização de artes visuais.
Curiosamente, o colorista começa sua série por uma cor neutra, mas que guarda em si, de forma extremamente dessaturada, os matizes de todas as cores.
A obra denuncia ao observador que ele não está diante da cor branca, mas sim de tons dessaturados de vermelhos, azuis, verdes, amarelas e todas as suas variações, de tal forma esmaecidas que o olhar as percebe como sendo uma única cor.
Claro que reside aí um componente cultural. Esquimós possuem mais termos para designar o branco do que qualquer outro povo, pois seu habitat é formado em grande parte por gelo e neve.
Poetas, como Cruz e Sousa, descrevem poeticamente diferentes tipos de branco e a indústria trata de comercializar uma série infinita de nomenclaturas dessa cor. Ora com nomes ou números mais técnicos, como os usados para classificar tintas de parede, ora com nomes românticos e sugestivos, como os usados em esmalte de unha.
Não é preto e Cinza coloridos partem da mesma percepção.
Colagens de impressões gráficas sobre foam board, 94cmx62cm, 2010.
Extensão das nuances das cores
Nesta série o artista investiga o limiar em que uma cor atravessa de uma família a outra. E mais, o quanto essas cores resistem à saturação e à dessaturação antes de adquirirem particularidades distintas.
Coletando imagens com o máximo de nuances possíveis dentro de um único matiz e as dispondo lado a lado em sua obra, em passagens tonais que lembram gestos de pinceladas abstratas, Fernando revela questões interessantes, como a de que a família dos azuis se mostra mais extensa, permitindo uma ampla gama de gradações entre claros e escuros, enquanto a família dos vermelhos logo perde crominância e adentra às famílias dos rosas, laranjas e marrons.
Entre 2010 e 2018, diversas séries foram concebidas utilizando papel colorido coletado em longas pilhas de revistas, momento que coincide com a gradual mudança das edições, que passam de majoritariamente impressas para a ênfase no virtual.
O interesse nas imagens não tange o seu significado, mas as passagens das nuances que são observadas de uma certa distância, privilegia aqui o campo abstrato da cor.
Contudo vista de perto, uma profusão de elementos permite reconhecimentos afetivos, porque muitas das figuras usadas fazem parte do nosso repertório imagético.
Como as imagens apropriadas das revistas são efêmeras, necessário finalizar o trabalho com um minucioso registro fotográfico da matriz das colagens e a impressão da obra em papel fotográfico de longa duração.
Para a exposição, matrizes e obras finais foram embaralhadas e é um desafio aos olhos perceber qual é qual.
Colagens de impressão gráficas sobre foam board, 94cmx62cm, 2010 (verdes-amarelados, 2015)
Contrastes complementares
A concepção dessa série de 2025 se constitui como anverso da série anterior. Parte de coleta, corte e colagem de imagens digitais que concentram matizes sem variações tonais e com características cromáticas do mesmo valor.
A proximidade das matizes acaba por compor um bloco uniforme, maciço, sólido, sendo necessário muito mais esforço visual para se distinguir as centenas de imagens que formam cada obra, mesmo as olhando de muito perto.
Interessante perceber que as figuras se fundem e quase desaparecem nas cores mais vibrantes, permanecendo melhor discerníveis nas cores frias.
Aqui também não há qualquer manipulação digital das imagens e o grande desafio é justamente encontrar as centenas de imagens necessárias que possuam as mesmas características de cor.
Para a exposição no Museu de Imagem e do Som de SC, as obras foram dispostas em sete pares de cores complementares ou opostas, gerando os contrastes simultâneos e a saturação do olhar.
Colagem digital sobre papel fotográfico, 70cmx50cm (cada cor), 2025.
Autoretrato - contrastes em tom maior e
Autoretrato em cor não absoluta
Em 2016, Fernando faz a primeira colagem figurativa, a obra Autorretrato – contrastes em tom maior, com a técnica de papel sobre tela, usando apenas recortes da escola de cores quentes capturados em mídias impressas.
Em 2025, especialmente para a exposição no Museu de Imagem e do Som de SC, seu autorretrato é apresentado no vídeo Autorretrato em cor não absoluta como experiência que possibilita ao público entender o quanto a luz do ambiente interfere na cor dos objetos que enxergamos.
O vídeo não usa qualquer recurso de edição de cor. A imagem realizada em uma única tomada foi capturada com uma câmera sobre tripé em um ambiente iluminado com luzes de LED em alternância automática de cor.
Vermelho, verde e azul interagem em luminosidades diferentes. Como os objetos refletem e absorvem frequência de luz em graus variados, sua aparência se altera substancialmente (aos nossos olhos).
É a cor-luz se relacionando com a cor-pigmento.
Passagens de nuances cromáticas
Realizada especialmente para a exposição de 2025, quatro videoartes foram apresentados em telas de 75 polegadas, sob fundo musical especialmente composto para a instalação.
Se na série Extensão das nuances das cores o observador é convidado a caminhar em diferentes distâncias e direções para observar, ora as abstratas passagens cromáticas, ora a profusão de figuras de que são constituídas, nos videoartes as nuances de cada cor são apresentadas em sequência, das mais claras às mais vibrantes, em detalhes muito ampliados, transformando as figuras em blocos de cores em movimento.
Como uma outra forma de olhar e perceber, agora o público pode ficar parado enquanto as imagens invadem a sua retina.
Contrastes simultâneos 1, 2 e 3
Trilha Sonora de ALEXANDRE KELLER ALBALUSTRO
Se as investigações das cores partem de uma cuidadosa experimentação dos fenômenos físicos, a relação entre cor e som participa da exposição e vídeos como uma experiência poética, pois nenhuma pesquisa científica alcançou qualquer ligação entre as frequências das cores luzes e as vibrações das notas musicais;
Apesar de inúmeras tentativas de reconhecer e relacionar as cores vibrantes com notas mais agudas em tons maiores e associar as cores mais escuras com notas graves em tons menores.
É neste movimento entre a cor do som e o som da cor que o convidado Alexandre Keller Albalustro compõe sequências tonais interpretando os acordes cromáticos presentes nas obras.
A criação sonora foi conduzida no Bitwig Studio, uma estação de trabalho de áudio digital (Digital Audio Workstation – DAW) que se destaca por seu fluxo criativo, ambiente modular e ampla liberdade de experimentação.
Essa plataforma permite explorar estruturas não lineares, camadas de modulação e uma integração fluida com instrumentos virtuais.
Os timbres e texturas ganharam vida principalmente através dos samplers UVI Falcon 3.0 e Native Instruments Kontakt 8.0, escolhidos pelo sound designer por sua expressividade, profundidade sonora e capacidade de escultura detalhada dos sons.
O autor da música descreve poeticamente o momento do seu processo de criação.
Às três da manhã,
o bairro de Coqueiros
parece se dissolver em silêncio.
Talvez o silêncio fizesse parte da paisagem,
participando da cena,
cobrindo o bairro como um véu.
Do apartamento,
observou o Morro da Cruz
e os morros com as suas luzes piscantes
que acompanham a Beira-Mar Sul.
Pensou que o contraste simultâneo — como nas cores —
e o silêncio funcionam em paralelo:
ambos realçam o conteúdo principal
por meio de sua oposição.
No contraste, é a cor vizinha;
no silêncio, é a ausência de ruído.
Ambos transformam a experiência —
tornando visível o invisível,
audível o inaudível.
O receiver japonês vintage
amplifica um tape deck
que toca Disintegration Loops IV dlp 6
(de William Basinski) ao fundo.
Sempre tivera uma fraqueza
por mastros e torres de rádio,
piscando ao longe.
É como se eles dessem mais vida à cidade
do que a própria cidade em si,
mostrando-nos que sempre há mais em um lugar
do que podemos perceber a qualquer momento.
Com essa imagem
escutou o silêncio
para criar alguns sons.
E tudo o que ele tinha
era um MacBook
rodando loops
em diversas camadas de efeitos:
granular sampling,
longos reverbs e delays,
soterrados pela saturação,
enquanto uma progressão harmônica
em D# minor
se repetia quase infinitamente
Alexandre Keller Albalustro
Sound Designer
Espectro cromático e Lapidações cromáticas
Representantes de duas séries diferentes, nestas obras o artista concilia os dois processos anteriormente relatados.
Primeiro produz em fotografia ou captura imagens digitais, depois as imprime em papel de longa durabilidade, para só então recortar manualmente as figuras impressas, separá-las por matiz e executar a meticulosa colagem manual.
Na série Lapidações a investigação tem como objeto o comportamento da cor pigmento em representações de materiais translúcidos [obra Lapidações Reflexivas, colagem, 120cmx100cm, 2021].
A obra Espectro Cromático é mostrada aqui em seu estudo digital (2017) e a colagem com impressões em papel Hahnemühle sobre canvas, 130cmx130cm, 2025.
Argentina e Ouros
Na série Extensão das nuances das cores, duas colagens fogem à regra da lógica do espectro cromático abordado nas demais – as famílias das cores douradas e prateadas.
O conceito de compor a extensão de imagens com cores que representam um aspecto metálico constrói uma camada além das gradações de nuances das duas cores.
O dourado da colagem Ouros e o prateado da colagem Argentina praticamente não variam a cromaticidade, e sim os matizes.
Especificamente, os fragmentos das imagens contêm matizes claramente identificados – amarelos principalmente nos dourados e brancos nos prateados.
Porém, dosados com uma quantidade generosa de cores neutras escuras (pretos, cinzas e marrons) que atribuem às superfícies das imagens a qualidade do brilho e polimento, conferindo a elas a impressão de uma superfície metálica.
Entretanto, o exercício do artista segue o mesmo preceito das demais colagens, pois é nítido como as duas cores também variam seus aspectos tonais conforme percorremos visualmente as obras, percebendo áreas onde o dourado fica mais rosado ou esverdeado e o prateado mais azulado, acinzentado e avioletado.
Processo de criação e fatura das colagens
Em 2012, Fernando Albalustro e Eneléo Alcides decidiram registrar o processo de criação de uma das colagem, do início ao fim. Na época, o material usado era apenas cola e recortes de papel.
Como cada obra utiliza centenas de pequenos recortes, o desafio inicial sempre foi conseguir impressões gráficas, procurando em revistas imagens que tivessem uma única cor.
O passo seguinte do processo é recortar cuidadosamente as imagens e separá-las em dezenas de bandejas, uma para cada gradação de tom do matiz específico a ser composto. Desnecessário dizer que o acumulo de imagens requer meses de busca em pilhas intermináveis de revistas.
Organizados como uma paleta prestes a ser usada como tintas preparadas para serem aplicadas sobre tela, os recortes começam a ser distribuídos sobre o suporte, encaixados como peças de um quebra-cabeça.
Não se trata de um processo de resultado ao acaso. O lugar exato em que cada fragmento de cor ficará é definido de acordo com sua nuance em relação aos demais, formando o movimento de passagens das gradações.
A colagem segue seu ritmo preciso até a conclusão da obra.
Generosamente, o artista torna público cada detalhe de sua técnica através do vídeo, que é um misto de documento e curso sobre seu processo artístico.





















