O eco infinito da cor - o legado do colorista José Maria Dias da Cruz

FERNANDO ALBALUSTRO

Da geometria cromática à poética do cinza sempiterno: a trajetória e o pensamento de José Maria Dias da Cruz, pintor colorista e teórico das cores, cuja obra e teoria das cores contribuíram para o cenário das artes visuais brasileira.

José Maria Dias da Cruz – Florianópolis, 2014. Fotografia Fifo Lima

No dia 23 de dezembro de 2025, em Florianópolis, a arte brasileira se despediu de um de seus mais inquietos pensadores da cor – José Maria Dias da Cruz. O colorista, pintor, professor e teórico das cores concluiu sua trajetória de mais de seis décadas dedicadas à investigação pictórica e à reflexão sobre o fenômeno cromático. Filho do escritor Marques Rebelo (1906-1973), José Maria Dias da Cruz cresceu cercado por artistas e intelectuais, absorvendo desde cedo uma visão plural e profunda da arte. Sua obra, marcada por uma busca incessante pela compreensão da cor, transcendeu o fazer pictórico, tornando-se referência obrigatória para quem deseja entender os fundamentos e as possibilidades da cor na pintura moderna brasileira. Mais do que um colorista virtuoso, José Maria foi um pensador original, autor de cinco livros que rebelaram o estudo da cor e influenciaram gerações de artistas e estudiosos das cores.

Biografia e trajetória artística: da infância ao reconhecimento nacional

José Maria Dias da Cruz nasceu no Rio de Janeiro, em 1935, em uma família onde a literatura e as artes visuais conviviam em harmonia. Seu pai, Marques Rebelo, não foi apenas um renomado escritor, mas também um incentivador das artes plásticas, e responsável pela fundação do primeiro museu de arte moderna do Brasil, em 1948 em Florianópolis – o atual Museu de Arte de Santa Catarina. Desde cedo, José Maria esteve em contato com grandes nomes da pintura brasileira, como Iberê Camargo (1914-1994), José Pancetti (1902-1958), Milton Dacosta (1915-1988), Tomás Santa Rosa (1909-1956) e Tarsila do Amaral (1886-1973), que frequentavam a casa de sua família e lhe transmitiram conselhos e ensinamentos preciosos. Aos 12 anos, participou de sua primeira exposição coletiva com a pintura aquarela Cenário em Florianópolis, na mostra Exposição de Arte Contemporânea que inaugurou o Museu de Arte Moderna de Florianópolis  (atual Museu de Arte de Santa Catarina), marco inicial de uma carreira que se estenderia por mais de seis décadas. Aos noventa anos de idade, ou seja, setenta e sete anos depois de expor sua primeira obra, Dias da Cruz teve a oportunidade de ser fotografado ao lado de Cenário, novamente exibida no MASC, na exposição Territórios (Im)permanentes, com o acervo do museu, aberta em 15 de abril de 2025, que permanece em cartaz atualmente.

o cubismo, a abstração geométrica e a arte conceitual. A série Formulários representa um momento de experimentação conceitual em que Dias da Cruz utiliza o suporte das fichas impressas de seu trabalho burocrático como referências para criar composições em pequenas telas que sintetizam preocupações com o espaço, a forma e o colorido, antecipando questões que seriam aprofundadas em sua teoria da cor.

Cenário, 1948 – Aquarela sobre papel, 16x22cm. Acervo do Masc
José Maria Dias da Cruz em15/05/2025, ao lado de sua obra Cenário, na abertura da Exposição do acervo do Masc Territórios (Im)permanentes. Fotografia de Eneléo Alcides

Sua formação artística foi enriquecida por estudos com Jan Zach (1914-1986),  Aldary Toledo (1915-1998) e  Flávio de Aquino (1919-1987), além de uma temporada em Paris, onde, graças a uma bolsa do Itamaraty e do governo francês, estudou pintura com Emílio Pettoruti (1892-1971) e gravura com Johnny Friedlaender (1912-1992). O contato direto com obras e mestres do início do século XX, especialmente Paul Cézanne (1839-1906 ) e  Georges Braque (1882-1963), foi determinante para o desenvolvimento de seu pensamento pictórico. Após retornar ao Brasil em 1958, José Maria Dias da Cruz, alternou períodos de intensa produção artística com atividades como programador visual, diagramador e analista de sistemas. Em 1968, retomou a pintura com vigor, iniciando a série intitulada Formulários. que dialoga com o cubismo, a abstração geométrica e a arte conceitual. A série Formulários representa um momento de experimentação conceitual em que Dias da Cruz utiliza o suporte das fichas impressas de seu trabalho burocrático como referências para criar composições em pequenas telas que sintetizam preocupações com o espaço, a forma e o colorido, antecipando questões que seriam aprofundadas em sua teoria da cor.

Formulário nº 15, 1974 – óleo sobre tela, 73x60cm
Natureza Morta, 1975 – óleo sobre tela, 73x60cm

Nos anos 1970, consolidou-se como pintor e aprofundou sua pesquisa sobre o colorido, que se tornaria o eixo central de sua obra e teoria. Entre 1973 e 1983 sua produção pictórica destacava-se  pelas naturezas-mortas, as quais o artista explorava o espaço plástico e as relações cromáticas entre objetos cotidianos.

Espiral, 1975,óleo sobre tela, 73x60cm
Pêra, Banana, 1976 – óleo sobre tela, 35x26cm
Relógios, 1981 – óleo sobre tela, 46x38cm

José Maria Dias da Cruz dedicou-se também ao ensino a partir dos anos 1980, lecionando pintura no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ) e na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV/Parque Lage), onde formou gerações de artistas e consolidou sua reputação como mestre colorista e teórico da cor. A partir de 1983 o artista se dedicou a abstração, produzindo pinturas onde a cor assumiu papel protagonista, subordinando as formas e criando campos vibratórios de percepção cromática. A presença de faixas coloridas, planos geométricos, bordas com contornos variáveis e escalas cromáticas explícitas revelam uma busca pela geometria das cores, na época o conceito central de sua teoria da cor.

Nº 1, 1988 – têmpera vinílica, 100x130cm
Sem-título, 2012 – óleo sobre tela, 70x90cm

A partir de 2017, José Maria Dias da Cruz desenvolveu a série Assemblages,  pinturas como infográficos que justapõem textos e imagens, criando conteúdos reflexivos autonomizados e ampliando o repertório intelectual e poético de sua obra. A série  Assemblages, soma-se com sua teoria da cor, evidenciando a confluência entre pensamento plástico e literário, razão e emoção, que caracteriza sua produção a partir de então. Após os anos 2000, a sua produção pictórica versou a partir de revisitações de suas séries anteriores.

Assemblage, 2017 - tinta acrílica sobre cilindros de papel e madeira
Assemblage, 2018 - caneta e acrílica sobre papel, 30x42cm
Assemblage, 2018 - caneta e acrílica sobre papel, 30x42cm

O colorido como forma de conhecimento

O estilo pictórico de Dias da Cruz foi marcado por uma síntese entre lirismo e rigor formal. Suas composições revelam uma paleta refinada, com uso hábil de tonalidades sutis, que criam camadas de profundidade e emoção a partir de suas hábeis combinações cromáticas.  A simplicidade formal, frequentemente presente em suas obras, esconde uma complexidade maior, convidando o espectador à reflexão sobre o fenômeno cromático e o espaço plástico. José Maria privilegiou o uso de tinta óleo sobre tela, geralmente em dimensões que não ultrapassavam 80x100cm. O artista explorou a textura com manchas geométricas para mostrar a dimensão temporal contida na pintura, utilizando escalas de cores como gráficos pictóricos – verdadeiras partituras que revelam a lógica do colorido em seus quadros. A abordagem técnica de José Maria inclui, o rompimento de tom, entendido não pelo círculo cromático tradicional, mas por diagramas que abrem possibilidades cromáticas. O artista descartou o círculo cromático iluminista baseado no espectro absoluto e propôs  a criação de diagramas cromáticos que permitem múltiplas interpretações das escalas cromáticas para o alcance da lógica de seu colorido. Sua teoria e prática é fundamentada pela distinção entre cor abstrata substantiva (ideia, que subsiste por si só) e cor concreta adjetiva (condição de ser do colorido). O seu conceito de cinza sempiterno, ponto potencialmente ativo entre as cores, foi explorado tanto nas telas quanto nos textos, conferindo à obra de José Maria Dias da Cruz uma dimensão filosófica e poética singular.

Contribuições teóricas sobre a cor: a geometria das cores e o cinza sempiterno

A teoria do cinza sempiterno, desenvolvida a partir do estudo de Paul Cézanne, é central em sua obra. Inspirado pela frase do mestre francês — Somente um cinza reina na natureza e alcançá-lo é de uma dificuldade espantosa,  Dias da Cruz concebeu o conceito do cinza sempiterno como um ponto de rompimento potencialmente ativo para a harmonização de cores contrastantes, como um fenômeno que contém todas as cores de um colorido. Esse cinza, presente nos intervalos entre as cores, é entendido como uma potência, um feixe de possibilidades suspensas, que transporta para a tela o fenômeno que acontece no olho, simultaneamente pré e pós-fenômeno.

O cinza sempiterno e a maria-sem-vergonha, 2014 – óleo sobre tela, 60x50cm
O cinza sempiterno, 2015 -óleo sobre tela, 60x50cm

O rompimento de tom, reinterpretado por José Maria, não se dá mais pelas misturas pigmentares do círculo cromático de Issac Newton (1643-1727 ) ou de J. W. Goethe (1749-1832 ), mas pela sobreposição da pós-imagem, onde a ênfase está no saber do olho acerca da apreensão do colorido. O artista propôs diagramas cromáticos que abrem possibilidades para a criação de coloridos dentro de uma lógica própria, afastando-se da geometria euclidiana  e se aproximando da geometria de curvatura positiva com aplicações da Teoria da Relatividade de Albert Einstein (1879-1955), mostrando que o espaço real não é necessariamente somente plano mas também elíptico,  hiperbólico e fractal. José  Maria também explorou o conceito de serpenteamento vinciano, inspirado em Leonardo da Vinci (1452-1519), substituindo a linha euclidiana estática por uma linha dinâmica, que anima figuras e espaços, conferindo vida às cores da pintura.

O cinza sempiterno e o vórtice, 2014 – óleo sobre tela, 100x70cm

A produção literária do pensamento plástico e da teoria da cor

A produção teórica de José Maria Dias da Cruz está registrada em cinco livros fundamentais para o estudo da cor e da pintura no Brasil. Cada obra representa um avanço conceitual e metodológico, consolidando o artista como referência obrigatória no campo da teoria das cores. O primeiro livro publicado em 1989 – Da cor na pintura – O ponto de passagem (edição do autor), é uma compilação de notas e reflexões acumuladas ao longo de vinte anos. O livro discute os pensamentos crítico, plástico e cromático através dos tempos, revisando as principais questões da pintura e do desenho a partir da proposição de uma nova forma de pensar a cor. No seu segundo livro,  A cor e o cinza – Rompimentos, revelações e passagens, publicado em 2001 pela editora Taba Cultural, Dias da Cruz reinterpreta conceitos plásticos de Leonardo da Vinci, e analisa como pintores do século XVII criaram novas formas de representação para as passagens entre luz e sombra. O autor também explora a complexidade das estruturas cromáticas e a consciência do espaço plástico de alguns pintores como Jan Van Eyck (1390-1441), Eugene Delacroix (1798-1863), Henry Matisse (1869-1954),  Piet Mondrian (1872-1944), Paul Klee (1879-1940), Marcel Duchamp (1887-1968) e Hélio Oiticica (1937-1980). O conceito de cinza sempiterno é aprofundado, revelando sua importância como ponto de passagem entre as cores e como potência ativa no espaço pictórico. Em 2014, José Maria lançou o terceiro livro, intitulado Pintura, Cores e Colorido onde aborda sua experiência pictórica para analisar os fenômenos da cor para estabelecer a real dimensão do pensamento humanista que permeia a produção estética ocidental referente às cores e ao colorido. O Cromatismo Cezanneano, publicado em 2021 pela Enunciado Publicações, é o seu quarto livro. Inspirado pelo estudo das reflexões de Paul Cézanne, este livro se organiza em torno da noção do cinza sempiterno e propõe uma teoria particular do cromatismo. Dias da Cruz dialoga com Cézanne sobre as rupturas cromáticas, com Leonardo da Vinci sobre as escalas cromáticas da sombra à luz e troca impressões com artistas e pensadores contemporâneos. O texto vai além da análise das obras de Paul Cézanne, propondo uma lógica plástica da pintura e atribuindo ao olhar a dimensão temporal da dinâmica das cores no espaço. O livro é considerado uma aventura de descobertas e mergulho intenso no universo das cores e formas, sendo referência obrigatória para estudiosos e artistas. E no seu último livro, Anotações sobre uma teoria da pintura, de 2022,  José Maria explora fundamentos da arte visual, mas também remete a conceitos como a importância da teoria da cor (luz, sombra, cores complementares) para criar profundidade, e a discussão histórica sobre a mimesis (representação da realidade) desde a Antiguidade Clássica até o Renascimento, abordando a percepção da cor, a energia e a função da arte como expressão e conexão entre o interior do artista e o mundo exterior.

Cada livro, além de seu conteúdo específico, dialoga com questões centrais da pintura, como o pensamento plástico, a percepção cromática, a relação entre cor e forma, e a dimensão temporal do espaço pictórico. A abordagem transdisciplinar de José Maria Dias da Cruz permitiu a renovação do estudo da cor, influenciando artistas, professores e pesquisadores das cores. Esses livros representam marcos fundamentais na teoria da cor e no ensino da pintura no Brasil, consolidando o legado intelectual do artista.

Metodologia de ensino e a influência para os ex-alunos, artistas e pesquisadores da cor

O impacto de José Maria Dias da Cruz como professor e teórico é notável. Ao longo de mais de três décadas de ensino no  MAM-RJ e na Escola do Parque Lage no Rio de Janeiro formou gerações de artistas, entre eles Carlos Bevilacqua, Gonçalo Ivo, Milton Machado, Guilherme Bueno, Ricardo Simões, Adriana Varejão, Beatriz Milhazes e Bernardo Magina. Gonçalo Ivo, hoje seu maior colecionador, com mais de 150 obras, manteve intensa amizade com José Maria e reconhece a influência decisiva do mestre em sua trajetória. As produções de seus ex-alunos revelam o alcance dos ensinamentos de José Maria, que estimulou o pensamento plástico, a experimentação cromática e a reflexão crítica sobre o espaço pictórico. Sua metodologia de ensino, baseada em uma abordagem disruptiva e transdisciplinar da teoria da cor, no rompimento de tom e na dimensão temporal da cor, influenciou não apenas pintores, mas também fotógrafos e artistas multimídia. A metodologia de ensino de Dias da Cruz estimula o desenvolvimento do pensamento plástico, considerando as questões cromáticas como base para a compreensão da pintura. Os cursos ministrados abordam o discurso verbal e plástico, o olhar prospectivo, a linha de contorno e sinuosa, a estrutura da forma, o rompimento de tom, a dimensão temporal da cor, o espaço plástico da proporção das formas e cores e a distinção entre cor abstrata e concreta.

Processo Criativo do colorista José Maria Dias da Cruz

O processo criativo de José Maria como colorista foi pautado pela busca do oculto por trás de cada cor, pela tentativa de entender o mundo como dicotomia entre superfície e profundeza cromática. O artista considerava que a cultura ocidental é cromófoba e que a cor é um fenômeno recalcado e reprimido, frequentemente vista como supérflua pela maior parte das pessoas. A percepção do desejo reprimido pelas cores, impulsionou José Maria a desempenhar sua pesquisa centrada no protagonismo da cor na pintura, reinterpretando conceitos como modulação, modelação, espaço plástico, ritmo, movimento e multifocalidade cromática.
O diálogo com poetas e filósofos, como Paul Valery (1871-1945), Baruch Espinoza (1632-1677) e Armando Freitas Filho (1940-2014), enriqueceu sua abordagem transdisciplinar, permitindo a articulação entre razão e emoção, intelectivo e poético, produção e criação. José Maria Dias da Cruz defendeu a transdisciplinaridade de Basarab Nicolescu como caminho para compreender a cor na arte moderna e contemporânea, marcada por contrastes, rompimentos e escolhas justas.
A produção pictórica e a teoria da cor de José Maria Dias da Cruz tem sido objeto de estudos acadêmicos, artigos e ensaios críticos. Pesquisadores como Sandra Makowiecky, Bernardo Magina, Rosangela Cherem, Ana Lúcia Beck, Márcia Zoé Ramos, Cristina Pape, Milton Machado, Paulo Herkenhoff e mais recentemente Luis Fernando Albalustro, analisaram seus livros e obras, destacando a originalidade e profundidade de sua abordagem metodológica e epistemológica.

Vórtice, 2004 – óleo sobre tela, 110x140cm
Sem-título, 2018 – óleo sobre tela, 40x50cm. Acervo Sandra Makowiecky

A principal contribuição teórica é sua proposição de uma geometria das cores, conceito que transcende a racionalidade formal e busca uma lógica perceptível pelo pensamento plástico cromático. Tendo criado teorias inovadoras que desafiam os paradigmas tradicionais da história da arte, José Maria Dias da Cruz merece ser reconhecido como um dos mais importantes coloristas pesquisadores da cor no Brasil.

Ao celebrar sua vida e obra, reconhecemos que, como ele próprio afirmou – o artista não é um ego, é um eco. O eco de José Maria Dias da Cruz ressoa nas cores, nas formas e nas ideias que continuam a inspirar e renovar a arte brasileira. Sua partida, embora dolorosa, é também convite à reflexão e à continuidade do diálogo com o infinito das cores.

Kelly Kreis Taglieber. Gratidão (retrato de José Maria Dias da Cruz), 2025. Desenho à lápis de cor, 30x40cm
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