Jardins Suspensos
LÍGIA CZESNAT
Curadoria
Clara Rovaris, Gabriela Moura, Gustavo Scheidt, Tainá Sant’Anna
As aquarelas de Lígia Czesnat revelam um universo de delicadeza, sensibilidade e contemplação, onde flores, pássaros e barcos flutuam suspensos por fios, sugerindo uma atmosfera de cores e gestos suaves, destacados pelo branco do papel que respira entre as formas, assinalando que o silêncio importa tanto quanto o traço e a transparência da tinta. A série de trabalhos se inspira nos jardins suspensos da Babilônia e reafirma-se pelo modo como se apresenta: folhas coloridas que pairam entre o que existe como vigília e sonho, imaginação e poesia. A exposição tem sua exibição presencial na Galeria Momento, um espaço expositivo itinerante da Destempo, recebida no Espaço Cultural Câmera Criativa entre agosto e setembro de 2025. Recebe aqui sua versão virtual.
JARDINS SUSPENSOS
As aquarelas de Lígia Czesnat revelam um universo de delicadeza, sensibilidade e contemplação, onde flores, pássaros e barcos flutuam suspensos em atmosferas de cores suaves e gestos delicados. Professora aposentada do curso de História da UFSC, ela sempre manteve uma relação próxima com atividades de linguagem visual, tendo estudado desenho e pintura em diferentes fases da vida. Recentemente retornou à prática de aquarela, com gosto pelas figurações delicadas e tons pastéis.
A artista pinta como quem toca o mundo pela ponta dos dedos: delicadamente, com suavidade e atenção a sutis detalhes. Nesse sentido, sua obra se alinha ao que Ítalo Calvino chamou de “leveza”, uma das qualidades fundamentais para a literatura — e, por extensão, para toda criação artística. Em Seis propostas para o próximo milênio, Calvino descreve a leveza não como superficialidade, mas como “precisão e determinação, mesmo que leves como uma pluma.” Essa ideia está presente nas representações visuais de Lígia, na qual o branco do papel respira entre as formas, o silêncio importa tanto quanto o traço e a transparência da tinta convida o olhar a repousar.
Essa leveza encontra também ressonância na filosofia de Gaston Bachelard, especialmente em A poética do ar, quando o autor associa o elemento aéreo aos devaneios do espírito — à imaginação que se eleva. Para Bachelard, o ar é o lugar da liberdade e da leveza, o espaço do voo e do sopro vital. Assim, as aquarelas de Lígia surgem como imagens suspensas, visões etéreas, que parecem pairar entre o real e o onírico, entre o vivido e o sonhado, como se nascessem do ar e a ele retornassem — em uma poesia contínua de fluidez.
A exposição convida o público a contemplar o território sutil de Jardins Suspensos. Inspirado pela imagem mítica das maravilhas da Antiguidade— os Jardins Suspensos da Babilônia, construídos segundo a tradição para encantar e consolar com beleza elevada acima do solo. Assim como os jardins da lenda babilônica pairavam entre o real e o imaginário, sustentados em terraços sobrepostos, as aquarelas de Lígia flutuam em superfícies leves, sustentadas pelo branco do papel e pela fluidez da tinta. A ideia de suporte para as obras em fios suspensos no ar também emerge dessa tradição alegórica.
Ao compor o espaço em forma de cascata, a exposição dos trabalhos segue uma alusão àquilo que apenas se pode imaginar que teriam sido os Jardins Suspensos da Babilônia. Suas aquarelas de Lígia, os contornos não se impõem, mas se insinuam; a cor não grita, mas murmura. Em tempos saturados de ruído e excesso, essas imagens oferecem uma pausa, um momento de respiro, uma lembrança de que há beleza no pequeno, no calmo e no leve — como um jardim suspenso no tempo, onde a imaginação encontra solo fértil para repousar e florescer.
Clara Rovaris, Gabriela Moura, Gustavo Scheidt e Tainá Sant’Anna
Curadores
Conheça a Galeria Momento, espaço expositivo itinerante da Plataforma Destempo que recebeu a exposição presencial.








