Gracia Plena

ROSANA BORTOLIN

Curadoria

Karine Abatti e Rosâgela Cherem

A exposição apresenta formas que não se querem graciosas, nem simplesmente engraçadas, mas irreverentes e críticas. Suas formas e encantos são provenientes de arranjos quase enganadores, que nos desafiam a pensar, para além de nossa subjetividade, a própria condição do corpo feminino e dos desafios que o atravessam neste tempo e lugar que nos coube viver. Gratia Plena tem sua exibição presencial na Galeria Movimento, um espaço expositivo itinerante da Destempo, recebida no ateliê da artista plástica Ilca Barcellos, anfitriã da mostra de 16 de outubro a 30 de novembro de 2025. Recebe agora sua versão virtual.   

Os dicionários de sinônimos informam que graça é a qualidade de algo que é engraçado ou cômico, mas também pode ser a manifestação de alguém ou algo que se faz gracioso. Tanto pode ser proveniente de um favor ou dádiva, como ser aquilo que se concede como oferta, de modo gratuito e sem custos, podendo ser ainda a concessão de uma benevolência ou perdão. Na mitologia grega, as Graças (Cárites) eram filhas de Zeus, dotadas de beleza e juventude. Tal como as musas, as horas e as ninfas, eram consideradas figuras de encanto, bondade e alegria. Por sua vez, na mitologia cristã graça é algo concedido por interferência divina, como um dom, uma cura ou uma salvação. Assim, quando o anjo da anunciação se encontrou com Maria, ela foi referida como cheia de graça.  

 

Desde muito jovem Rosana Bortolin associou o barro à natureza e esta ao universo feminino, tal como no caso dos ovóides e dos ovos mutantes. Em seus alguidares procurava encontrar a dialética da matéria e deixar que ela falasse por si. Temáticas sobre o tensionamento entre sagrado e profano começaram a se definir neste momento, reconhecendo os casulos e ninhos como uma espécie de relicário de vida e morte. Depois tornou estas formas mais verticais e totêmicas e chegou aos guardiães, articulando com as leituras de Carl Jung. Mais adiante, assumiu posturas mais provocativas sobre o canônico e as convenções. Contemplando menos o erotismo e mais as escatologias, voltou seu olhar para as entranhas, tal como as fotos impressas em almofadas a partir de secreções, logo após o parto de seu filho, ou o sudário com a fotografia ampliada de um marisco, reverberando em séries de elevada provocação expositiva.

Em novo desdobramento, encarou  a dimensão política do corpo feminino por meio da cultura e da religião, tal como nas fotos da mulher vestida de hijab com uma genitália no lugar do lábio. Posteriormente, o controle da sexualidade e do desejo feminino fez com que nascessem novas séries de genitálias moldadas em argila e em alginato, as quais foram expostas em diversos conjuntos e de diferentes modos. A artista as chamou de Santinhas, mas para fins desta exposição elas ganham o nome de Graças, tanto como uma maneira de contemplar sua riqueza de sentidos, como um modo de levar adiante a pergunta, ainda que sem perder a dose de ironia: o que é um corpo feminino cheio de graça? como a arte pode pensar sobre esta possibilidade na contemporaneidade?

 

Rosana Bortolin povoa o mundo com estas formas que não se querem graciosas nem simplesmente engraçadas, mas irreverentes e críticas. Suas formas e encantos são provenientes de arranjos quase enganadores, que nos desafiam a pensar, para além de nossa subjetividade, a própria condição do corpo feminino e dos desafios que o atravessam neste tempo e lugar que nos coube viver.   

Karine Abatti e Rosângela Cherem
Curadores

Conheça a Galeria Movimento,  espaço expositivo itinerante da Destempo que recebeu a exposição presencial Gratia Plena, de Rosana Bortolin,  entre 6 de outubro e 30 de novembro de 2025. 

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