Entre Águas e Terras, Margens Tecnológicas

CAROL BERGER • CLARA FERNANDES • DAMIÁN ANACHE • ENELÉO ALCIDES • FERNANDO CODEVILLA • FRAD (FLORENCIA RUGIERO Y ANDRÉS DENEGRI) • LUCIANA PETRELLI • LUCAS BAMBOZZI • MALEN OTAÑO E SUYAI OTAÑO • MARIO OLIVEIRA E MICHELE MONTEIRO • RAQUEL STOLF E HELDER MARTINOVSKY • SARA RAMOS • TIROTTI • VAL SAMPAIO E MARIANO KLAUTAU FILHO • YARA GUASQUE

Curadoria

Eneléo Alcides, Mario Oliveira, Nara Cristina Santos, Raul Antelo e Rosângela Cherem

Sob o tema modos de existir e causas ambientais, 15 artistas ou duplas apresentam obras usando a linguagem da videoarte, da videoinstalação e da videoperformance. Muitos de nós ainda não desistimos de pensar sobre este espaço que repartimos com outras espécies, interrogando nosso papel como a espécie mais ameaçadora que habita sob este céu e sobre esta terra. Responder ao ponto de inflexão que estamos chegando em relação ao degelo das calotas polares, à degradação irreparável do solo e dos ecossistemas florestais é de uma urgência extrema. Que o digam os diferentes artistas que participam desta exposição, todos sensíveis ao tema das causas ambientais e aquilo que dá condições para podermos existir.

Uma versão presencial ocupa o Museu da Imagem e do Som de Santa Catarina (MIS/SC), de 11/12/2025 a 02/02/2026.

Era janeiro de 1320, Dante Alighieri (1265- 1321) viajou para Mântua e Verona, com a finalidade de apresentar um tema intitulado Quaestio de aqua et terra. Trata-se de um debate sobre cosmologia, considerando a tradição aristotélica, o pensamento cristão-medieval e os conhecimentos sobre o mundo natural, a partir da ciência de seu tempo. O escritor refletia sobre a distribuição de água e terra na superfície do globo, especificamente interrogando o motivo pelo qual a terra firme (continentes) emergia acima da superfície da água, em vez de o planeta ser uma esfera completamente coberta por ela, como postulava a cosmologia aristotélica, uma vez que para o filósofo grego a terra era constituída por círculos concêntricos.

 

Exilado em Ravena e sem poder retornar a Florença, sua cidade natal, enquanto escrevia O Paraíso, parte final de A Divina Comédia, argumentava sobre a distribuição relativa de água e terra na superfície do globo, pois se a água fosse perfeitamente esférica e cobrisse toda a terra, não haveria terra seca. Aos 55 anos, sem saber que morreria um ano depois, para ele, a elevação da terra em relação à água era resultado da influência dos corpos celestes, especificamente a ação da esfera estelar (influência astrológica), atribuindo tal realidade a uma escolha divina que estaria para além da compreensão humana.

 

Com certeza nossos conhecimentos mudaram significativamente ao longo de oito séculos, que o digam as alterações tecnológicas que nos levam a formulações de problemas e respostas bastante distintas daquelas que foram levantadas por Dante Alighieri. Mas fato é que muitos de nós ainda não desistimos de pensar sobre este espaço que repartimos com outras espécies, interrogando nosso papel como a espécie mais ameaçadora e destrutiva que habita sob este céu e sobre esta terra. Responder ao ponto de inflexão que estamos chegando em relação ao degelo das calotas polares, à degradação irreparável do solo e dos ecossistemas florestais é de uma urgência extrema. Que o digam os diferentes artistas que participam desta exposição, alguns já bem reconhecidos pela linguagem da videoarte, da videoinstalação e da videoperformance, todos muito atentos ao tema das causas ambientais e aquilo que dá condições para podermos existir.

Equipe Curatorial

Agradecimento especial a Jorge La Ferla – Universidade del Cine (ARG)

O TEMA DESTA EXPOSIÇÃO PODE SER RECONHECIDO POR MEIO DE TRÊS CONJUNTOS DE PROBLEMAS:

1 – O que a devastação nos traz como tragédia anunciada?

Lucas Bambozzi (BRA) - Paisagens rasgadas

Abordar os desastres da natureza e capturá-los como imagem impactantes, sob outros ângulos, revela a dinâmica desastrosa da exploração ambiental. A cartografia visual a partir de imagens aéreas, sejam de satélites, aviões ou drones, apresenta uma novamaneira de olhar criticamente para as tragédias terrestres, desde a nossa contemporaneidade tecnológica. O artista compartilha conosco, na instalação audiovisual, uma face desta realidade descuidada sob a óptica de Brumadinho (MG) em 2019, onde os efeitos da mineração e do desmatamento, das barragens e da inundação foram devastadores não apenas para a comunidade local.

TiroTTi (BRA) - Seres outros

Três homens escavam uma rocha ou parede, perfuram um obstáculo em busca de algo. São mineradores ou salva vidas? Estão a produzir ou a reparar um desastre? Estão a céu aberto ou escavam algo num subsolo iluminado pelas lanternas?

Yara Guasque (BRA) - Rio Instalador

Entre imagens reais, apropriadas e manipuladas digitalmente, reconhecemos a terra de Minas Gerais carregada pelo transbordamento arrasador da barragem construída pela mineradora que deveria conter a contaminação que sua atividade poderia causar num vasto entorno, incluindo os lençóis freáticos. Vemos um rio de lama, a devastação é completa, tudo se esvai, vidas e trabalho, animais e território. A natureza vai demorar para se refazer, mas isso acontecerá um dia. E nós, como espécie devastadora, até quando conseguiremos viver nesta condição?

2 – O que é esta temporalidade que nos escapa e não para de nos espreitar?

Carol Berger (BRA) - O oceano, III movimento, Etherium

Entre o céu e o mar, a areia, as rochas e a restinga, o artista videoperforma em conexão com a natureza, em uma atitude de respeito e reflexão. Seu corpo atua em interdependência com ambientes naturais, movimento que é capturado por uma câmera de 360 graus, cujas imagens revelam uma dança imersiva ao mesmo tempo em que convidam para uma imersão tecnológica em realidade virtual. A interação entre artista, obra e público acontece no espaço expositivo com performance ao vivo, e no ambiente virtual através de óculos 3D, como um convite à presença.

Clara Fernandes (BRA) - Amorphobia

Estamos diante de uma videoperformance inspirada na chegada dos colonizadores e viajantes a Ilha de Santa Catarina, tal como foi registrada pelos autores do século XIX e XX e imaginada pela artista. Depois de enfrentarem o medo dos naufrágios e das intempéries, a temporalidade lenta e a exuberância do lugar devem ter impactado os recém chegados por meio das embarcações marítimas, seguindo-se as surpresas com o modo de vida dos nativos e dos pacatos habitantes, em contraste com outros centros urbanos. Em particular, Virgílio Várzea e Cruz e Sousa permitem considerar a chegada da Cia de teatro de Julieta dos Santos, ou como resume a própria artista, trata-se de supor como histórias verdadeiras e fantásticas se mesclam nesse sonho-vídeo.

Eneleo Alcides (BRA) - De lá e de cá, Brincadeiras entre águas

As cenas deste vídeo nos são familiares, porque um dia também fomos crianças e brincamos na água, rimos e saltamos de trapiches improvisados. Em todas as culturas com acesso a rios, lagos ou oceanos, isso é uma experiência lúdica e real. Mas como explicar que isso nos traz uma sensação de alegria? De proximidade entre as brincadeiras daqui e de lá? Desde as nossas mais antigas relações de parentesco entre as espécies (filogenética), a água faz parte de nossa origem. Mesmo do ponto de vista de nosso processo evolutivo individual (ontogênese), o líquido amniótico é o primeiro ambiente em que nos movimentamos com liberdade, mergulhados na plenitude. Assim, algo destas camadas mnemônicas, como espécie e como indivíduo, nos leva a reconhecer uma experiência corporal, reincidindo algo que suspende o tempo, nos liga e nos faz humanos.

Luciana Petrelli (BRA) - Ilhas de força

Um fluxo de águas vermelhas vem em ondas e bate nas pedras. O movimento anadiômeno, somado à cor, causa um certo estranhamento ou desconforto. Do que trata esta imagem? Aquele mar é de sangue a lembrar as primeiras travessias de imigrantes ou uma alegoria da vida, dos nossos sentimentos e do destino que simplesmente segue sem que saibamos onde fica seu paradeiro?

Malen Otaño y Suyai Otaño (ARG) - Exercícios espirituais

As duas artistas propõem nesta trilogia um questionamento sobre as problemáticas territoriais, os colapsos ambientais e as crises sociais desde práticas vitais. A projeção audiovisual em grande escala da obra, nos aproxima de uma cena ou enredo em meio as imagens da natureza, reais e simbólicas, e as sonoridades díspares. As ações corpóreas das personagens entre rios e florestas, surgem como exercícios espirituais que enfatizam um discurso de construção coletiva, de outros modos de vida sustentável e de uma conscientização crítica sócio-política.

Val Sampaio e Mariano Klautau Filho (BRA) - A janela

Uma paisagem ribeirinha no Pará pode ser observada em dois vídeos paralelos, nos quais a artista nos convida a acompanhar o efeito do movimento cíclico do vai e vem das águas do rio, cobrindo e recuando suas margens indefinidamente. Um mesmo lugar, entre águas e terras, é capturado em distintos momentos de tomada das imagens. A obra evidencia diferentes temporalidades, que tratam tanto da mudança na natureza com o fluxo das marés, como do tempo cronológico que escoa, quanto do olhar que contempla a sua própria passagem com o tempo.

3 – Como pensar o movimento e suas causas intangíveis?

 

Damián Anache (ARG) - Capturas do único caminho

O movimento generativo das imagens digitais produz uma delicada combinação neste vídeo, a partir de diferentes formas que se apresentam com sutis colorações. Mas a obra define-se por uma forte temporalidade a partir de um algoritmo que combina instruções predefinidas com escolhas aleatórias do artista, resultando em variações únicas em cada execução. O que Anache nos permite considerar neste vídeo? Sem dúvida uma experiência sensorial que como ele defende, combina a precisão matemática, a sensibilidade acústica e a exploração visual, próprias da sua pesquisa musical.

Fernando Codevilla (BRA) - Ondear

Quando a água não é observada somente como um pingo, uma poça, um rio, um mar, ou entendida como um recurso natural em seus diferentes estados, ela pode se reconfigurar. No campo da arte, na linguagem mapeada e sonorizada do vídeo, a água pode surgir como um estudo poético digital. O artista a registra em dois momentos, da imagem capturada e da imagem manipulada, cujo espaço é impactado de modo aleatório pela força da água e cuja superfície é perturbada pelo seu movimento, gerando vibrações na imagem e liberando energia acústica.

FRAD - Florencia Rugiero e Andrés Denegri (ARG) - Três verões (primeira parte)

Os artistas compartilham conosco, a primeira parte da série de cinema experimental, onde apresentam uma exploração visual e sonora de paisagens às margens do rio Paraná, na Argentina. O processo criativo conjunto de FRAD, com a escolha de imagens em preto e branco, revelam não apenas um ambiente natural onde a vida parece passar devagar, mas um lugar de contemplação onde o tempo escoa lentamente. O som inserido posteriormente contribui para uma experiência mais intimista e particular do público.

Mario Oliveira e Michele Monteiro (BRA) - Sísifo feliz

De início temos a perfeita ideia de um Éden ao nosso alcance, uma visão paradisíaca como promessa de felicidade tropical numa ilha não tão distante. O dia está ensolarado e pleno, a água do mar é de um azul turquesa cristalino. Mas esta imagem de cartão postal é justaposta ao esforço de alguém que nada, alternando a cabeça ora para a superfície, emergindo para respirar, ora submergindo pela parte abaixo desta mesma superfície. Sem interromper esta ação, quer porque chega a uma margem, quer porque realiza um mergulho em direção a uma profundidade outra, agora, tudo já parece adiado e o paraíso está novamente distante. Seria então este vídeo uma espécie de metáfora de como nos movimentamos em relação às promessas de nosso destino?

Raquel Stolf e Helder Martinovsky (BRA) - Pedra fantasma

Trata-se de um trabalho que se interroga sobre o lugar de uma pedra na história do mundo. Sabemos que em eras muito remotas, ela era parte de uma montanha, até que esta se partiu em milhões de pedaços, muitos dos quais, acabaram no fundo dos rios. Esta pedra em particular, talvez tenha ficado mergulhada naquelas águas por alguns milênios, se deslocado lentamente em função das enchentes, se precipitado a jusante devido aos movimentos fluviais ou mesmo às interferências humanas, até que um dia, a artista a retira deste lugar e a transporta. Seguindo pelo rio, ela a recoloca e a retira, repetindo esta ação por diversas vezes. Assim, ao acelerar um deslocamento que, de maneira natural seria muito mais lento, um evento aparentemente ordinário, modifica a extraordinária ordem do mundo.

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