Desavessos
ALMIRA REUTER
Curadoria Eneléo Alcides e Rosângela Cherem
Desavessos reune um conjunto de trabalhos que transita entre a pintura, o bordado e a escultura têxtil, revelando um processo artístico pautado pela experimentação com linhas, agulhas, tecidos e cores.
As obras ficam abertas ao público na Galeria 33, de Joinville, de 27 de janeiro a 30 de março de 2024, refletindo a maneira como Almira transforma suas memórias, vivências e observações em composições que mesclam técnicas e suportes, transitando entre o bi e o tridimensionais. Pintura, bordados, colagens em tela, mantas e estofados servem de base para narrativas visuais que atravessam tempos, culturas e geografias, conectando o íntimo e o coletivo.
Com curadoria de Rosângela Cherem e Eneleo Alcides, Desavessos desta a potência expressiva dos fios e das cores, combinando referências da religiosidade popular, do barroco mineiro, da cultura litorânea baiana e das histórias de imigrantes, até alcançar temas universais, sociais e contemporâneos. Após sua edição presencial, a exposição recebe sua versão online permanente, na Plataforma Destempo.





DESAVESSOS: A ARTE DE ALMIRA REUTER
No início eram pinturas, mas logo as pinceladas deram lugar ao trabalho com agulhas e linhas, buscando novos processos e experimentações. Assim, sobre telas perfuradas e esburacadas, ganharam lugar os alinhavos e as maçarocas. Ultrapassando a superfície biplanar, objetos e seres conquistam sua tridimensionalidade, não sem antes passar também pelas capas de estofados e metamorfosear-se em xales, colchas, toalhas e mantas. O ponto comum entre as pinturas e os bordados consiste no colorido expressivo, sendo que em ambos, nada é muito definitivo, tudo parece surpreender. Compondo verdadeiras dramaturgias, tramas e cenas não conhecem hierarquias nem regras, reinos nem geografias.
Figuras da religião católica como Santo Antônio, São Cristovão, Santa Rita de Cássia e Nossa Senhora remetem a um distante repertório mnemônico, trazendo vestígios das marchetarias, colagens, esculturas, gravuras, bordados, franjas e toda uma série de ornamentos barrocos, sobretudo de matriz mineira. Mas assim que reconhecemos os fios desta tradição, deslindam-se as cores das embarcações e as reminiscências das redes de pesca do litoral baiano.
A artista confidencia: boa parte destas figurações emerge das lembranças de sua infância. Seus trabalhos falam de um mundo que lhe toca de modo muito íntimo, sua própria história e de familiares, antecessores e descendentes. Do mesmo modo, sua curiosidade pela vida faz ecoar a história e as lides de pessoas que conhece e convive, os imigrantes de Joinville, os desdobramentos de um Brasil escravocrata, os conflitos em Gaza e seus apelos pela paz. Bonecos que compõem tipos humanos de diferentes etnias e culturas testemunham desde um passado colonial às questões prementes do Oriente Médio, os povos árabes, palestinos e muçulmanos. Tudo aquilo que vive, lê, vivencia e experimenta, Almira processa em obra.
Todavia, suas pinturas- bordados/ seus bordados- pintura? não podem ser alcançados como simples verso ou reverso, anverso ou avesso. A artista nos demanda uma sensibilidade aguçada para reconhecer que na variedade infinita da vida, como na arte, existir é sempre uma maneira de existir entre espaços. Se toda existência pode ser concebida como uma estranha amêndoa, também é possível pensar que seres e coisas existem nas básculas situadas entre o objetivo e o subjetivo, o coletivo e o individual, o repetido e o único, o permanente e o fugidio, o distante e o próximo. Eis a maneira como somos convidados a testemunhar o gesto artístico que instaura existências nos espaços entre linhas e cores, paridas como materialidades colorantes.



