Carnaval, Carnavais

ALCEU BETT • DIORGENES PANDINI • ENELÉO ALCIDES • FABRÍCIO TOMAZI • JOYCE MUSSI

Curadoria

Raul Antelo • Eneléo Alcides • Fernando Albalustro

A exposição reúne quatro percepções sobre o carnaval, fenômeno multicultural e transtemporal, que no Brasil é apropriado como identidade nacional e ganha status de patrimônio cultural. Em O casamento de Dionísio e Apolo, Eneléo Alcides retrata o universo de trabalho, saberes e disciplina por trás dos desfiles das escolas de samba de Florianópolis. Olorum, de Alceu Bett, aborda a religiosidade, o transcendental e o onírico relacionado às escolas de samba de Joinville; Arqueologias do Carnaval traz uma seleção de textos clássicos por Raul Antelo, que carregam as interpretações dos festejos na visão de escritores brasileiros. Carnafilias, com fotografias de Diorgenes Pandini, Fabrício Tomazi e Joyce Mussi, constitui um passeio pelas ruas de Florianópolis, tomadas pela diversidade humana que se esbarra e se apodera da cidade. Montada no Museu da Imagem e do Som de Santa Catarina (MIS/SC) e aberta ao público entre 11.02 e 23.03.25, recebe agora sua versão digital.

O Carnaval é o último ato das Festas do Ano Novo. Ressoa nele tudo quanto vivemos, mas também aquilo que não se conseguiu viver. Materializam-se todas as instâncias que podem desbravar uma nova esfera de desejo e reconhecimento. Por ser uma Festa, o Carnaval supõe um contato com o divino, seja ele Dionisos, a contingência ou simplesmente o Outro, o que nos tensiona entre a gozosa aceitação do dom e a entrega a uma tão ilusória quanto infinita bonança.
Quando pensamos em carnaval, interpretações e experiências se abrem sem percebemos o quanto o fenômeno abrange manifestações culturais tão distintas ou mesmo contraditórias. Aspectos sagrados e profanos; lazer e trabalho exaustivo; cultura elitista e popular; materiais luxuosos e materiais ordinários descartáveis; inversão de papéis e figuração tradicional imutável. Afinal, qual é a relação entre os espontâneos blocos de sujos, os organizados desfiles de escola de samba, as raves, as marchas militares, as procissões religiosas e os rituais de inversão? Certamente as associações estão para além da mera questão estética e histórica.
Carnaval, carnavais traz um recorte com quatro dessas percepções. Em O casamento de Dionísio e Apolo, Eneléo Alcides retrata o universo de trabalho, saberes e disciplina por trás dos desfiles de escolas de samba. Olorum, de Alceu Bett, aborda a religiosidade, o transcendental e o onírico; Arqueologia(s) do Carnaval traz uma seleção feita por Raul Antelo de textos clássicos que contém as interpretações dos festejos na visão de autores brasileiros. Carnafilias, através dos registro de Diorgenes Pandini, Fabrício Tomasi e Joyce Mussi, constitui um passeio pelas ruas, tomadas pela diversidade humana que se esbarra e se apodera da cidade.

Raul Antelo – Eneléo Alcides – Fernando Albalustro
Curadores

Alceu Betti, Brasilidade, Série Olorum, 90x60cm, 1916
Alceu Betti, Xango sem chagas, Série Olorum, 90x60cm, 1916
Alceu Betti, Eternidade Polaroide, Série Olorum, 90x60cm, 1916

OLORUM, de Alceu Bett

Um mergulho transcendental e onírico no instante de conexão onde apenas a verdade e a entrega persistem. Não se trata apenas do registro, mas do êxtase compartilhado, confundindo o observador e o observado, em um movimento em camadas de territórios visuais. O punctum antropológico reside em ver a si mesmo no outro, descobrindo-se na certeza do ato singular de sentir. Respirar apenas, observar através dos poros e desfazer a imagem em cascas antropofágicas atemporais e simbólicas. Capturar êxtases requer ser o próprio êxtase e vibrar na mesma frequência do outro, uma simbiose completa.

Katiana Machado

CARNAFILIAS

A mais antiga e diversificada manifestação de carnaval é aquela que ocupa as ruas com subversões de papéis sociais e gênero. As inversões vêm de épocas babilônicas, incorporando rituais mais carnais e etílicos na Grécia dionisíaca e nas festas romanas. Chega ao Brasil ainda em 1533 através do entrudo e hoje leva milhões de foliões às ruas de todo o país. Bandas, blocos organizados ou de sujos, festas abertas e mesmo incursões solitárias. Mulheres vestidas de homens, mas, principalmente, homens vestidos de mulher, de todas as classes sociais. Florianópolis é o palco do maior evento do carnaval catarinense reunindo no centro histórico mais de 400 mil pessoas. Com fantasias criativas, irreverentes e ousadas, os sujos arriscam tanto adereços mínimos como extravagantes para dar sentido à contraversão. Mesmo nessa louca multiplicidade, cada canto da cidade acaba reunindo pessoas que se buscam por afinidades e, por mais que o poder público tente intervir delimitando artificialmente os espaços, a força da espontaneidade das ruas sempre resiste.

Fernando Albalustro

Joyce Mussi
Diorgenes Pandini

Diorgenes Pandini

Fabrício Peixoto

Fabricio Tomazi
Carnaval de rua – fotografias sobre papel
Fragmento da poesia Carnaval – página 57 do livro manuscrito Idílios Vagabundos, de Rodrigo de Haro – Sem data

A poesia termina na página seguinte com a estrofe:

Tomados de vertigem
então se imobilizam
os três camaradas

O CASAMENTO DE DIONÍSIO E APOLO, de Eneléo Alcides

Fogos de artifício marcam o início do cronômetro. A comissão de frente está atenta a cada gesto coreografado, a porta bandeira e o mestre sala reverenciam e protegem o estandarte da escola, os componentes de ala festejam, as baianas honram a tradição, a bateria sustenta o ritmo. Enquanto alguns destaques chamam a atenção para a exuberância das fantasias e dos seus corpos, os responsáveis pela harmonia estão trajados formalmente e controlam com rigor o andamento de cada quesito, a postura e a vestimenta dos foliões. Mesmo os empurradores das pesadas alegorias estão vestidos de forma protocolar. Em 70 minutos, milhares de componentes atravessam a Passarela Nego Quirido. Júbilo, organização e disciplina. Fechados os portões, permanecem apenas fragmentos de memórias, insuficientes para guardar o universo de plasticidade e histórias vivenciadas.
Após a última Escola passar, o carnaval acaba para o público. Todavia, para centenas de pessoas e profissionais envolvidos com as Escolas de Samba é justamente o momento de arregaçar as mangas e mergulhar novamente, ao longo de todo o ano, na criação e produção de milhares de elementos alegóricos e de fantasias que voltarão no próximo carnaval.

E.A.

Seis vídeos integram a exposição Carnaval, Carnavais, trazendo um recorte dos desfiles das Escolas de Samba de Florianópolis. Quatro retratam os principais quesitos que compõe o desfile: comissão de frente, casal de porta bandeira e mestre sala, baianas e destaques. Um vídeo retrata a alegria dos foliões e o último os carros alegóricos.  As imagens foram capturadas no carnaval de 2024 e no desfile da Consulado de 2012.

Acadêmicos do Sul da Ilha
Consulado
Dascuia
Embaixada Copa Lord
Império Vermelho e Branco
Jardim das Palmeiras
Nação Guarani
Os Protegidos da Princesa
União da Ilha da Magia
Unidos da Coloninha

Eneléo Alcides
Fotografias em vídeo
Desfile das Escolas de Samba em Florianópolis
2011, 2012 e 2024

ARQUEOLOGIA DO CARNAVAL

Entre 1923 e 1925, Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo, o Di Cavalcanti (1897- 1976), idealizador da Semana de Arte Moderna, morou em Paris, como correspondente do Correio da Manhã, onde conheceu Picasso e Satie, Braque e Matisse, entre tantíssimos outros. Em 1925, ilustra uma edição especial de um conto de João do Rio (1881-1921), O bebê de tarlatana rosa, num trabalho que preanuncia outros clássicos do artista, como a tela Samba (1925), ou os painéis para o teatro João Caetano (1929), do Rio de Janeiro. Como apontou Murilo Mendes, Di Cavalcanti, aceitando os paradoxos do moderno, sa-bia que o prazer encerra também conflitos, abismos, contradições, e por isso definia o pintor como pesquisador “de uma técnica para exprimir nossa indiferença — nossa miséria — nossa sensualidade insatisfeita — nossa preguiça diante de tão grandes problemas a serem resolvidos — nossa atmosfera de véspera de carnaval, de calor, de tédio, de carnaval político, de ânsia da liberdade, de musicalidade”. Osório César des-tacou também seu medo do espaço vazio, com uma prolixidade nos de-talhes, que evocava uma fuga bachiana ou um desenho em arabesco. É o que vemos no “realismo macabro” (Mário de Andrade) utilizado no conto de João do Rio, que prefigura, aliás, A questão social continua um caso de polícia. Álbum Realidade Brasileira (1931). Di Cavalcanti, ilus-trador das revistas Vida Moderna (1917), Panóplia (1917-1918), Revista do Brasil (1919), Ilustração Brasileira (1921-1923), Para todos (1929), e até mesmo da revista Klaxon (1922), notabilizou-se também pelas ima-gens para Os Fantoches da Meia-Noite (1921); Modernos, de Benjamim Costallat e A Sinistra Aventura, de José do Patrocínio Filho (1923), bem como Uma Tragédia Florentina, de Oscar Wilde (1924). Aracy Amaral captou que, em sua sinuosidade dolente, Di Cavalcanti observou, pioneiramente, que “o povo já é o grande personagem, captado por ele em seus afazeres e lazeres”. Sirvam, portanto, esses desenhos já centenários para abrir uma arqueologia do carnaval a partir de uma série de fragmentos de destacados escritores brasileiros.

Raul Antelo

Seleção de textos de Raul Antelo

Edição montada no MIS/SC entre 11.2 e 23.3.25

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