EPIPHASES
Clara Rovaris e Isadora Nicoladeli
Curadoria
Rosângela Cherem
As pinturas de Clara Rovaris e Isadora Nicoladeli se organizam como experiências de limiar entre aparência e mistério. De um lado, superfícies que simulam escritas, vestígios e materialidades outras; de outro, retratos imersos em atmosferas íntimas e oníricas. Em comum, as obras fazem da pintura um campo de suspensão, onde revelação e ocultamento coexistem, preservando na imagem aquilo que não se deixa apreender por inteiro.
Clara Rovaris apresenta encenações tensionadas para fazer a pintura parecer com aquilo que não é: escritas com giz, placas de azulejos rabiscadas em vermelho, anotações sobre papel com letras borradas, frases ermas que parecem saídas de bilhetes de biscoito chinês, fragmentos de um poema, talvez abandonados ou inconclusos. No conjunto destes trabalhos, deslindam-se conhecimentos de história da arte que remetem aos palimpsestos, ou seja, superfícies, cujos desenhos e escritas foram sucessivamente sobrepostos ao longo de diferentes tempos e contextos. Também lembram algo conhecido como pentimento, recurso em que um/a artista encobre uma parte da pintura para aperfeiçoá-la, segundo seus critérios de correção figurativa. Do mesmo modo, é possível reconhecer certa ironia das pinturas em trompe l’oeil, tipo de charada visual em que o/a artista faz com que algo se apresente como um tipo de delírio ótico exacerbado e muito convincente quanto a uma qualidade táctil que não possui. Ao observarmos atentamente tais recursos, identificamos uma pintora que faz uso de saberes advindos, tanto dos primórdios que antecederam ao manuseio de telas e tintas modernas, como das vanguardas da segunda metade do século XX, passando pelas pesquisas acadêmicas mais próximas dos/as artistas que vivem na mesma cidade em que ela mora, estuda e trabalha. Ademais há ainda muito de literatura, sobretudo dos autores que permitem juntar os problemas da biografia com os assuntos pictóricos. Assim é no tamanho aparentemente reduzido e despretensioso de seus quadros, que os resultados mais travestem sua materialidade como parte de algum segredo perdido. Isadora Nicoladeli apresenta encenações de outro tipo: nelas há corpos que se inscrevem no gênero pictórico do retrato, mas quase sempre imersos em água de alguma banheira. Relaxados e languidos em sua privacidade, seus olhos, quando não estão fechados, parecem olhar para algo distante. Fazendo uso de uma cartela cromática muito bem escolhida em nuances que vão do rosa ao roxo, passando pelo vermelho carnal, seu panejamento em matizes de branco, apresenta-se com dobras que, muitas vezes, mais parecem cacos de vidro. Em telas menores do que a escala do corpo humano, a ênfase está voltada ao rosto, embora só a artista saiba a quem pertence, pois costuma fazer uso de modelos convidados a partir de um rol de pessoas próximas. Tatuagens, uma moeda, uma almofada nos conduzem ao misterioso desejo de explicar algum enredo que nos escapa. Leitora apaixonada, parece buscar os estados emocionais que não cabem numa definição precisa, preferindo certos estados oníricos em que o inclassificável e a latência orbitam em torno do núcleo imagético que preserva seu enigma. Apresentadas as singularidades, já podemos reconhecer alguns elementos de afinidade entre estas duas artistas. Ambas passam pela graduação em Artes Visuais do Centro de Artes da Udesc, formando um repertório comum. Embora a primeira prefira pintar com tinta acrílica e incursione por diferentes linguagens visais, a segunda faz uso de tinta à óleo, priorizando uma pintura mais morosa em seu processo. Escolheram a pintura, mas se mantêm ligadas ao interesse pela literatura. E foi devido a estas afinidades que acabaram dialogando com a obra de Balzac intitulada A obra prima ignorada. Depois a desdobraram na leitura de Didi Huberman sobre o mesmo livro. Em seguida, decidiram considerar a crise do personagem chamado Frenhoffer em relação a sua obra, ao mesmo tempo como revelação (epiphasis) e como desastre (aphanasis). E assim seguem olhando sua pintura como um estado limiar, um movimento de báscula que oscila entre o desejo de capturar algo que sempre parece se desviar e o risco de permitir que a catástrofe ocupe um lugar onde algo fique para sempre soterrado. Mas se o ato de pintar soterra aquilo que se pretendia revelar, é também ele que permite que esta busca incessante em direção ao inalcançável mistério persista como obra para além daquele que a ela se dedica…
Rosângela Cherem
Isadora Nicoladeli
Distinto / distante: Rovaris & Nicoladeli
RAUL ANTELO
A pintura deve banir a figura do figurativo. (…) Não podemos mais dizer que o sentimento religioso sustentava a figuração na pintura antiga: pelo contrário, ele torna possível uma liberação das Figuras, o surgimento das Figuras fora de toda figuração. Também não podemos mais dizer que a renuncia à figuração seja mais fácil à pintura moderna enquanto jogo. Pelo contrário, a pintura moderna está invadida, sitiada pelas fotografias e pelos clichês que se instalam sobre a tela antes mesmo que o pintor comece seu trabalho. De fato, será um erro acreditar que o pintor trabalha sobre uma superfície branca e virgem. A superfície já está toda investida virtualmente por todo tipo de clichês com os quais é necessário romper.
Gilles Deleuze – Francis Bacon: lógica da sensação (1981).
Uma imagem é aquilo que se capta no olhar e que, com sua sólida presença, faculta à vista o dom de contemplar. Essa perspectiva é dúplice: age com templum, i.e. com outras áreas sagradas, outros monumentos da história; e com tempus, no anacronismo inerente a toda história. Rosângela Cherem destacou o efeito de transparência das imagens de Isadora Nicoladeli, como se determinados objetos tivessem sido previamente imersos em água por algum tempo.
“Isadora Nicoladeli apresenta encenações de outro tipo: nelas há corpos que se inscrevem no gênero pictórico do retrato, mas quase sempre imersos em água de alguma banheira. Relaxados e lânguidos em sua privacidade, seus olhos, quando não estão fechados, parecem olhar para algo distante”.
Ora, a banheira é um objeto raro no Ocidente, mesmo bem depois da Revolução francesa. Não obstante, o banho, para alguém do século XIX, era uma maneira de sonhar com o Oriente, seus prazeres, o ópio e seu êxtase. Não é uma opinião pessoal. É o que resume Eugène Briffault, em 1844, sublinhando, na prática do banho, uma peculiar trama de classe social, orientalismo, estética e higiene. Não podemos, a esse respeito, esquecer das litografias de Les Baigneurs (1858), de Honoré Daumier, com todo um debate sobre a natureza da civilização, o confronto entre antigos e modernos, a ideia de progresso e os valores religiosos, tal como expresso também pelo médico Auguste Debay, em Hygiène des Baigneurs (1849-50). De fato, toda essa emergência do banho, no século XIX, remete à antiga Roma e ao Oriente, bem como às instalações de duchas coletivas, em Paris, construídas pelos romanos, porém, abandonadas durante a Idade Média, de sorte que o banho conota certamente laicismo e influência negativa da tradição católica.
As coisas mudam, porém, a partir do II Império, como mostra Alfred Stevens, em Femme au bain (1867. Musée d’Orsay). Se o barão Haussmann é responsável pela modernização da capital francesa, o engenheiro Eugène Belgrand recebeu a incumbência de nela criar uma rede de fornecimento de água, para todos os imóveis (pois não havia mais de sete casas com banheiras, em Paris, no século XVIII). A título de exemplo, lembremos de Edgar Degas, Femme à la bassine. (1886. Hill–Stead Museum, Farmington) e do mesmo Degas, Femme dans son bain s’épongeant la jambe (1883). Degas capta, com efeito, uma mudança nos hábitos cotidianos, tão importante que, no centenário da Revolução, ganhará um pavilhão na Exposição universal (1889): o pavilhão da Higiene e de sua deusa tutelar, Hígia, figura próxima de Koré que, no dizer de Agamben, é a vida enquanto não se deixa tocar, nomear, atribuir-lhe uma idade, uma identidade sexual ou uma máscara, tanto social como familiar[1].
Mesmo antes de manifestações modernistas como a de Pierre Bonnard, Nu dans la baignoire (circa 1940), essa remissão ao Oriente tem um nome preciso, mediado também pela água: Veneza. A pintura vêneta, tão apreciada pelos românticos, manifesta sempre extremos, o esplendor e o declínio, a glória e a decadência. Colhemos exemplos emblemáticos em Stendhal: Histoire de la peinture en Italie (1817), Rome, Naples et Florence (1817; 1826) e Promenades dans Rome (1829). Logo em sua primeira visita à cidade de Veneza (24 julho 1815), Stendhal surpreende-se com a proposta de seu amigo Valdramin, de tomar banho de mar no canal de la Giudecca, com uma escada amarrada ao navio, como eram aliás praticados, à época, os banhos públicos em Paris.
Mas as figuras submersas de Nicoladeli estão longe de fruírem de um momento de placidez. Retomando a tradição de Jacques-Louis David, em A morte de Marat (1793), seu olhar está quase ausente, ou no dizer de Cherem, seus olhos, quando não estão fechados, parecem olhar para algo distante. Qual a relação, portanto, entre o olhar perdido e o retrato? No início de Au fond des images, Jean-Luc Nancy partiu do axioma de que a imagem é sempre sagrada (o que não quer dizer religiosa) porque sagrado significa o separado, aquilo colocado à distância, o subtraído. Aquilo que é próprio fica então distante, no afastamento, e com ele só é possível estabelecer um vínculo paradoxal por demais. O distante é aquilo que não se pode tocar (ou tocar apenas sem contato). Nancy chamava de distinto o traço diferencial que separa aquilo que não é tangível, mesmo não sendo um intocável, mas um impalpável. Todavia aquilo que não é próximo, pode ter duas feições: distanciado do contato ou da identidade. A imagem é algo que não é a coisa propriamente dita, mas aquilo que, essencialmente, nela se destaca. No entanto, o que fundamentalmente se distingue da coisa é a sua força, a energia, a potência, a intensidade. A força é tensionada aquém ou além das formas, porém, não como mais uma forma obscura, mas como o outro das formas. É o íntimo, e sua paixão, diferente de toda representação. A distinção do distinto é, portanto, seu distanciamento. Desse modo funcionam os retratos, que são a imagem da própria imagem, em geral. Um retrato toca; caso contrário, ele não seria nada além de uma foto de identidade, um assinalamento, porém, não uma imagem. Aquilo que toca é algo da ordem da intimidade que está, entretanto, na superfície. Toda imagem é então um “retrato”, não porque reproduza os traços de uma pessoa, mas porque dela tira (valor semântico etimológico do termo “retrato”) e extrai algo, uma intimidade, uma força[2]. A imagem não “representa” essa força íntima; ela é, contudo, essa força: ativa-a, tira-a e retira-a, ela a extrai, retendo-a, e é com ela que, enfim, nos toca. As imagens das coisas, as eidola, não passam, em suma, de simulacros. Nesse sentido, toda mimese encerra também uma methéxis, uma participação ou contágio, por meio da qual a imagem nos atinge. A imagem é sempre material: ela é a matéria do distinto, sua massa e sua espessura, seu peso, suas bordas e seu fragmento. Desde o início, a matéria é mãe (materies vem de mater, o miolo da árvore, a madeira dura), e nesse sentido, a mãe é a portadora de distinção: em seu íntimo, separa-se uma intimidade de outra e gera-se uma força alterna, um outro mesmo, que se separa do próprio para ser ele, em si mesmo. Daí que Nancy conclua com uma palavra de ordem que estruturará não só essa obra seminal, mas toda sua reflexão estética: a imagem é uma evidência. É a evidência do distinto, a distinção ela mesma. Invisível, o distinto não pertence ao domínio dos objetos, de sua percepção e de seu uso, mas se inscreve no campo das forças: “a imagem é a evidência do invisível”. Em consequência, a arte remarca (retraça, retrata) os traços distintivos da ausência, do recuo da verdade[3].
Tal como o bretzel benjaminiano, recriado por Didi-Huberman[4], a arte funciona feito o biscoito da sorte (tinta acrílica sobre tela, 30 cm x 30 cm., 2025) de Clara Rovaris: “tudo que não se quer é a verdade”. A verdade da arte é mais do que uma verdade: é uma existência; algo que nunca se ofereceu, mas que sempre surge à presença. E essa verdade, sufocada pela aceleração do movimento, em água turva (vídeo, 2025), proclama o enigma da vida, essa vida para lá de placentária, como a de muitas mulheres de Nicoladeli. A de Rovaris, no entanto, sobreimprime-se às imagens, em palimpsesto:
“Fico pensando na ideia de crescer / sem mãe. Crescer? Na verdade, / queria falar sobre a infância de / meu pai. Mas, me encontro na posi / ção de total ignorante. Será que / adentro a memória de meu genitor? / Bom, se for, certamente precisarei / de um fio de Ariadne, tenho o / costume de me perder em ou / tras vidas. Por que narrar minha / vida, se posso nadar em águas turvas; / posso me afogar, e me permitir / beber muita água, antes de acordar / do devaneio. Bom, essas palavras não / são sobre mim. Quero falar sobre meu / pai. Mas como?”.
Distinto / Distante. Cercadas pelos fluxos, as imagens de Clara Rovaris e Isadora Nicoladeli não nos apresentam coisas, mas lidam com a própria opacidade das imagens. São uma reflexão a propósito das imagens.
Referências Bibliográficas:
[1] AGAMBEN, Giorgio & FERRANDO, Monica – La ragazza indicibile: Mito e misterio di Kore. Milão. Electa, 2010.
[2] NANCY,Jean-Luc – Le Regard du portrait. Paris, Galilée, 2000.
[3] NANCY, Jean-Luc – Au fond des images. Paris, Galilée, 2003, p. 11-33. O texto nasceu como parte do catálogo da exposição Heaven, curada por Doreet Le Vitté Harten, e exibida na Kunsthalle de Düsseldorf e na Tate Gallery, de Liverpool, em 1999.
[4] DIDI-HUBERMAN, Georges – Diante do tempo. História da arte e anacronismo das imagens. Trad. Vera Casa Nova e Márcia Arbex. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2015, p.164-5.




























































