Ventania

RAUL ANTELO

O autor parte da compreensão sobre o vento para os antigos gregos pré-socráticos, chegando ao escritor brasileiro Aníbal Machado, na obra O iniciado do Vento. O texto considera a exposição Ventania, da artista, Laís Krucken, promovida pela Destempo em sua Galeria Momento, espaço itinerante apresentado no hall da Biblioteca Central da UDESC, em Florianópolis, entre setembro e outubro de 2025, tendo como curadoras Clara Rovaris, Gabriela Moura e Lígia Czesnat (exposição virtual neste site). Em seu raciocínio, Raul permite lembrar que a artista visual realizou os trabalhos em tempos de pandemia, o que remete ao fato de que também ela se iniciou numa percepção aguçada sobre algo impalpável para contrapor-se às mortes inesperadas, causadas por uma realidade incompreensível.

Foto: Michele Monteiro.

A exposição “Ventania”, de Laís Krucken, com curadoria de Clara Rovaris, coloca-me, de início, uma reflexão sobre o vento, que é elemento crucial na explicação filosófica do mundo para os antigos jônicos ou jônios. Com eles começa, na Grécia, a pesquisa científica, fundindo elementos caldeus (astronomia) e egípcios (geometria). Destaca-se, dentre seus defensores, Anaximenes de Mileto (585-528 a. C.), autor de Em torno da natureza, obra em que se afirma que:

O ar infinito é o princípio das coisas. Mas ele não é indeterminado;

O ar é sustento ou invólucro. Sustenta nossa alma, que é ar e, da mesma forma, o sopro e o ar circundam o mundo inteiro;

Ele é gerador de todos os seres;

Dele provém a percepção da diferença. Quando ele é muito igual, ele é invisível ao olhar; mas torna-se visível com o frio e com o quente, com o úmido e o movimento;

O ar gera o movimento eterno e a mudança; e assim confirma a eternidade     do movimento, como causa das transformações;

O ar marca um duplo processo de transformação pois diferencia-se em diversas substâncias, conforme a sua rarefação ou condensação. Quando rarefeito, torna-se fogo; condensando-se, vira vento, a seguir, nuvem, e ainda transforma-se em água, em terra, e finalmente, em pedra;

O ar conduz o frio e o calor por rarefação e condensação. A temperatura não é uma qualidade da matéria, mas uma afecção dela, superposta às mudanças. A parte condensada é fria, ao passo que a quente é dilatada e expansiva.

O pensamento para os gregos comportava uma ação intelectual junto a outra, espiritual, vinda do phrin, o espírito, o pensamento conforme ao bom senso. Mais tarde, acrescenta-se o espírito como pneuma, conceito introduzido pelos estoicos, enquanto sopro (vento e sopro de vida), noção à qual o cristianismo lhe confere permanência, ao desmaterializá-la.

Mas há uma deriva muito interessante, inerente à verdade, que associa o vento ao simulacro. A palavra grega pseudos significa mentira, mentir, conceito que teria vindo do radical *pseu-/psu, forma expansiva da raiz *bhes-, soprar, fazendo com que o sopro do vento se receba como uma forma de mentira, de simulação. A deriva é importantíssima porque dela provém o verbo grego phemi ou o latino fari, dizer, de tal sorte que o pseudos é, ao mesmo tempo, erro, fabulação, mentira ou simplesmente ficção, como construção sobredeterminada e acrescentada à experiencia, embora não como contra-verdade. Vento é suplemento.

Dessa tradição de pensarmos a vida como efeito do ar e do vento, provém a atitude de pensar o espírito como vento, ideia que encontramos em Maimônides; em Hobbes, no Leviathan; em Spinoza, no Tractatus theologico-politicus. O sentido etimológico de espírito como vento ainda perdura no Evangelho de são João, quando afirma que o pneuma sopra onde quer. Antigas representações identificam o vento como sopro divino e não deve nos surpreender que, mesmo em pleno século XX, quando o poeta Garcia Lorca traça uma teoria do duende, isto é, do jogo e do acaso, para assim se confrontar ao positivismo hierárquico que subordinava toda ação à mensurabilidade do ato dito científico, identifique o duende com um vento ancestral.

“O duende opera sobre o corpo da bailarina como o vento sobre a areia.  Transforma com mágico poder uma garota em paralítica da lua, ou enche de rubores adolescentes um velho roto que pede esmola pelas tendas de vinho, dá aos cabelos um cheiro de porto noturno, e em todo momento opera sobre os braços com expressões que são mães da dança de todos os tempos”.

O duende de Lorca é um zéfiro, um vento amável. Ele circula “pelo arco vazio de um pensamento alado que sopra com insistência sobre a cabeça dos mortos em busca de novas paisagens e acentos ignorados; um ar com odor de saliva de criança, de erva pisoteada, e véu de medusa que anuncia o constante batismo das coisas recém-criadas”.

Um antecedente do duende lorquiano são os Caprichos de Goya. Em dois deles, “Mala noche” (nº 36) e “Volaverunt” (nº61), o vento associa-se ao desejo sexual. No primeiro, a noite ventosa espanta os hipotéticos clientes de duas moças, à beira da estrada; no segundo, Goya plasma a duquesa de Alba, cujos favores estaria perdendo, como figura alada, com conotações de bruxa. Mas essas figurações, no início da modernidade ibérica, não se esgotam em si mesmas e perdurariam até muito mais tarde. Aníbal Machado, sofisticado surrealista brasileiro, é autor de “O iniciado do Vento” (1959), um conto dedicado a Carlos Drummond de Andrade, em que um engenheiro visita a capital dos ventos, uma cidade sacudida por incríveis ventanias, precedidas pelo sintoma de uma súbita imobilidade e anemia no céu. Há uma sobrevivência, nada fortuita, na estória de Machado, do relato “Roberto, o voador”, que o psiquiatra Heinrich Hoffmann redigiu em 1844 e Aby Warburg expõe, no sanatório de Kreuzlinguen, em abril de 1923. Aníbal narra que, após ter presenciado a morte de cinco operários em um acidente de trabalho, na construção de uma ponte, o engenheiro José Roberto escolhe um vilarejo recôndito como ambiente de repouso e, lá, estabelece uma amizade com Zeca da Curva, rapaz nativo do lugar.

“Lá fora o vento guaiava. Era agora um vento de tipo retórico e banal, o que corre em toda parte sem a menor afinidade com o outro, que era todo malícia, mocidade, fecundação. A discriminação gratuita entre as duas famílias de vento prendia-se no espírito do engenheiro às impressões deprimentes da chegada”.

O visitante descobre na aldeia um menino que gozava cavalgando com o vento: era o iniciado do vento:

“Zeca da Curva e eu saíamos todos os dias para estudar o vento, segundo a

direção, a hora, a velocidade, o cheiro e as diversas coisas que ele faz bulir. Quase sempre deixava que o menino falasse; quando emudecia, era eu que o provocava com noções teóricas ou invenções gratuitas”.

A seguir, ambos elaboram uma classificação dos ventos:

“Assim, segundo a nossa classificação, havia ventos maliciosos e ventos desordeiros, ventos calados e ventos que cantavam, ventos compridos, de grande velocidade, e ventos miudinhos, desses que começam a correr sobre a grama e logo desanimam aos pés do primeiro arbusto. Confessou que apreciava muito esse tipo de vento, chamado brisa, filhote do grande, que movimenta as nuvens; é, dizia ele, uma viração “que não dá nem para suspender as saias das moças, mas serve para levantar os gravetos do caminho e os papèizinhos da calçada”. “As grandes árvores nem se mexem, pois não dão confiança a essa brisa, mas as plantinhas miúdas ficam felizes.” (…) O vento afirmou – é soprado por gigantes enormes escondidos atrás da cordilheira; se é muito forte, chama-se ventania; quando fica escuro, chama-se furacão, pior ainda do que a ventania.

“-Se o vento não tem cor, interrompi, por que diz que o furacão é escuro?

“-Porque é escuro mesmo, respondeu. Eu acho que ele é assim porque passa com as lanternas apagadas. E continuou: -Ventania é danada pra virar canoa e destelhar casa. Desarruma tudo. O pessoal fica aflito quando ela vem, e eu fico só gozando…

“-E os outros ventos?

“-Ah, sim, tem o ventinho de todo o dia, respondeu. E apontando com o queixo: – Este que está passando aí, por exemplo … Muito bom para refrescar a pele e empinar papagaio… Parece que não vale nada, não é? Mas depois que chega é uma festa… Olha lá os bambuais como ficam! Olha o miIharal!…

“-E a brisa? perguntei.

“-Ah! essa sai da boca dos filhotes do gigante. Gosta muito de apostar corrida com o rio.

“Só para excitá-lo, procurei qualquer definição especial para a brisa e disse: -É um vento que ainda não cresceu.

“Olhou para mim, reflexivo:-Isso mesmo!”

O menino até atribuía ao vento a descoberta do Brasil.

“O pequeno maltrapilho era o meu mestre de vento, o verdadeiro iniciado. E eu, o discípulo, não me vexo de confessá-lo. Daí por diante, só o compreendia dentro mesmo do vento. De tal maneira que, sem a sua companhia, eu me tornava indiferente a qualquer viração. Mas evitava que ele percebesse o meu estado de espírito, e dentro de mim mesmo lutava contra as imagens delirantes”.

O dia de uma ventania mais forte, o menino, despido, abandona-se ao vento e o visitante chega a ser inquirido pelo sumiço dele. O misterioso desaparecimento do menino leva à imputação de homicídio a Zé Roberto.

“Minha amizade com a malograda criança foi, como disse, unicamente na base do vento, assim como o meu encontro com ele foi o vento que propiciou. Encontro que será também com a desgraça, se Vossa Excelência, senhor Juiz, não quiser admitir que, além dos fatos habituais de nossa vida cotidiana, outros há, íntimos, que ocupam a parte maior de nosso ser; mas que temos vergonha de confessar para não parecermos infantis ou loucos. São justamente os mais secretos, e o senso comum se recusa a considerá-los.” (…) “No tipo de intimidade que mantive com o desaparecido entrou muito de nossa imaginação e, de minha parte, certa vontade de espairecer-me. Envergonho-me de ter sido obrigado a contar num ambiente impróprio para que me acreditem coisas que parecem inverossímeis, e que não poderiam constar de processo algum. Um crime é um crime, e impõe respeito; mas a narrativa em juízo de uma aventura com o vento há de parecer coisa inventada e absurda. Eis por que falei tanto no vento. V. Ex.ª me desculpe.

Se algum culpado houve, Sr. Juiz, no caso, foi mesmo o vento. Eu quero esclarecer que me refiro a um que sopra quase todos os dias e neste momento mesmo já começa a agitar as palmeiras lá fora” (…) “é um vento especial, morno, de um teor diferente, rico de qualidades… eu ia dizer de intenções.”

Finalmente,

“O juiz não mais compareceu às audiências. Nem despachou processo algum. Qualquer coisa havia mudado na fisionomia moral da cidade. O vento começou a existir. Descobriram-lhe um sentido novo. Algo de estranho passara-se na consciência do magistrado. Transferido ou aposentado, desapareceu da comarca dias depois, sem nada dizer, sem se despedir de ninguém”.

O conto foi lido como confronto entre um país rural e outro, dinâmico e moderno. Sua adaptação para o cinema, O menino e o vento de Carlos Hugo Christensen (1967), com roteiro e diálogos de Millôr Fernandes, é considerada pioneira na reivindicação LGBTQIA+. Porém, mais do que uma tensão dialética, seria bom destacar que a sociedade aqui plasmada está a toda e nenhuma distância do moderno, o que Brasília aliás, em construção durante a redação do relato, faz isso visível como nunca, no ponto-nó em que arcaico e moderno deixam de aparecer em linha sucessiva, para apresentar-se como polos de uma mesma corrente sincrônica.

Por sinal, a imagem final, do vento soprando as páginas do manuscrito, assim como as folhas do jornal e todo tipo de material impresso, questiona a ordem letrada (a Lei), bem como a própria noção identitária de gênero. O vento torna-se então uma projeção da verdade enquanto ficção. Essa característica de dinamismo e mudança da ventania que varre o tempo associa-se, em última análise, à própria relatividade das coisas, todas em busca de um sentido que não estaria nem lá, nem cá; mas, como o próprio vento, em vários lugares, ao mesmo tempo e para além de nossa percepção.

Poderíamos então associar o vento não a uma imposição tecnológica que varre o existente, mas à busca de prazer, seja como for, até a morte. Coloca-se assim um dos paradoxos do contemporâneo: o consumo do belo dá-se num mundo que expulsa a arte e até documenta sua extinção. Ao se desmaterializar, a arte difunde-se, vaporiza-se, negando a materialidade clássica, tornando-se apenas experiência.

Dessa constatação, temos várias traduções. Marshall Berman nela reconheceu a premissa marxiana de que o sólido desmancha-se no ar. Zygmunt Bauman, a emergência de uma “modernidade líquida”. O prazer já não é o ponto de partida da experiência estética, algo firmado por Schiller desde a Educação estética do homem, ou por Marcuse em Eros e a civilização. A ventania contemporânea, soprando fora do museu, postula uma fruição rapsódica e intermitente. De um lado, vaporização da arte; de outro, simultaneamente, beauty unlimited, arte desbordada como experiência estetizada.

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